Qual a criança (inclusive aquela com várias infâncias, que nem eu) que diante de uma fumegante sopa de letrinhas nunca parou, antes da colherada, para localizar uma palavra boiando, em formação aleatória? E quem não tentou interferir no acaso e não ficou mexendo, remexendo, na esperança de um improvável vocábulo?
Sopa de letras faz pensar, e não apenas ludicamente. Rala ou cremosa, a refeição é um arquipélago de possibilidades, tanto alimentícias quanto filológicas. Enquanto não esfria e coagula, travando a ondulação do alfabeto de amido, o comensal filosofa. Respostas a profundas inquietações podem surgir casualmente no lago de calorias cercado de porcelana por todos os lados: qual a origem do universo? E o sentido da vida? Quais as razões da razão? Por que minha mãe me obriga a tomar isso?
As letrinhas nada revelam, e no entanto elas se movem. Assopramos, em busca da acomodação térmica do caldo na língua, enquanto queimamos fosfato em torno dos mistérios de imprevisíveis arranjos. O vento bucal rearruma a superfície: “pjalve”, “dfzhuo”, “vbcmigr”. (Quem sabe a arqueologia deva algo à culinária do infante Champollion). Significados ocultos, perdidos para sempre após a deglutição, talvez segredos imemoriais, que só digerimos literalmente, sem literatura.
E dizer que já houve confusão linguística com esse alimento, ah, se as sopeiras falassem. Imagine os conflitos internacionais, quando os primeiros pacotes de sopa de letra corriam o mundo e eram mal interpretados em outros países. Um prato fundo podia conter inocente grupo consonantal num idioma e ser intragável palavrão em tcheco, norueguês, húngaro. Ou frustrava brincadeiras à mesa: por mais que induzissem o alinhamento das letrinhas, era tudo indecifrável.
Foi preciso que os responsáveis pelas receitas parassem para pensar. A conclusão foi tão óbvia que obviamente todos estalaram a palma da mão na testa e redundaram a obviedade: como não pensamos nisso antes?!
A solução foi que cada nação tinha que fabricar sua própria massinha. Desse modo a produção já resultava condicionada à língua materna do fabricante, por assim dizer. Os testes logo comprovaram: todas as formações ensopadas, mesmo as ininteligíveis, continham elementos do léxico local. Alívio para olhares e paladares.
Com a atual globalização, a maioria das sopas de letras soletra em inglês. É um indigesto defeito de fabricação. Goela abaixo, pode até virar uma arma de desnutrição em massa.
(Publicado originalmente no jornal Extra Classe, ago/09)
Vivemos a Era da Banalidade:
tanto dão à luz de modo banal
como tiram a vida banalmente.
Brasil, país zerado: sempre na estaca zero,
as partidas terminam em zero a zero e os
homens públicos são um zero à esquerda.

Antigamente a morte não mandava aviso.
Agora, até twitter acho que tem.
A tecnologia tenta conectar as pessoas
de todo jeito. Mas a linguagem insiste
em desconectá-las.
A diferença entre o corredor
da morte nos EUA e o corredor
de ônibus em Porto Alegre
é que lá as pessoas são
eletrocutadas sem a ajuda
da CEEE e da EPTC.

Entre a vacina e o vírus da gripe, prefiro o vírus.
Eu já sei o mal que ele pode me fazer.

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