A língua, único músculo que diz a que veio, só não é mais exigido que o músculo cardíaco. Por isso a língua, como qualquer parte do corpo, também fica fora de forma. Pode acabar flácida e sem fôlego até para dizer polissílabos e proparoxítonas.
Aí, pela lei do menor esforço, em vez de pântano, diz pantano, interim no lugar de ínterim etc. O problema fica sério quando, assim desmilingüida, a língua nem consegue declarar algo constitucionalissimamente ou inconstitucionalissimamente.
Quer dizer, a condição física da língua pode até afetar a vida nacional. Embora não se note, a língua também ganha adiposidade: enche a boca e se torna linguaruda, capaz de inflar frases, dizendo mais que o necessário e, o que é pior, de engordar o sentido do que é dito. Temos aí um quadro de verborragia, que seria o excesso de peso da fala. Culpa da língua, incapaz de manter a linha do linguajar.
Aí é que entra um profissional que já faz falta, o palavral trainer. Ele viria para melhorar a performance das más línguas, aquelas estufadas de frases prontas, obesas de redundâncias, a ponto de perderem a agilidade oral.
Não, o palavral trainer não seria um mix de professor de dicção com fonoaudiólogo. Esses têm sua valia, porém suas funções tratam de eliminar defeitos da fala, enquanto o palavral trainer se encarregaria da aparência da linguagem, da silhueta oratória. Seria alguém para melhorar o desempenho linguístico do ponto de vista estético-sintético, se é que já não estou precisando de um neste exato trecho.
O palavral trainer, contratado por quem quisesse deixar a língua elegante, acompanharia a pessoa no dia a dia, em exercícios rigorosos, visando a redução da expressão. Com programa adequado a cada tipo de cliente, simularia as situações onde a língua encorpada soa à toa. Clientela sobra: comunicadores, palestrantes, discursadores, fofoqueiros, todos poderiam afinar o estilo.
Os resultados agradariam a falantes e ouvintes: a pronúncia ficaria menos pronunciada, o falatório desincharia, o vocabulário ficaria esbelto. Tudo porque o palavral trainer, com a rigidez do seu método, iria corrigir o cliente durante sua rotina pessoal e funcional. Ouviria telefonemas, diálogos, discussões, explanações, e interviria no ato, influindo nas consequências de cada conversação. Seria o fim da eloquência pançuda.
Bem-vindo seja o cara.
(Publicado originalmente no jornal Extra Classe, nov/07)
Mulher na presidência merece voto de confiança.
Afinal, homens confiáveis nem parece haver mais.
Palanque é um lugar contraditório: quanto maior a
rivalidade entre candidatos, mais unidos ficam ali.

A ciência faz o que pode pra prolongar a vida.
O cotidiano faz de tudo para encurtá-la.
A evolução cognitiva de um ser humano
começa no ABC e termina num AVC.
Se
Se os edifícios não tivessem janelas,
os pais não atirariam seus filhos por elas.
Se as pessoas não tivessem neurônios,
nunca se tornariam neuróticas.
Se o brócolis fosse um animal,
os vegetarianos detestariam brócolis.
Se ninguém zela pelo mais importante – o planeta –
pra que zeladores nos prédios residenciais?
Se os vermes tivessem paladar,
não devorariam qualquer defunto.
Se ignorância matasse, o problema da
superpopulação mundial estaria resolvido.
Se o Bem e o Mal evitassem intimidade,
o Certo e o Errado não andariam de mãos dadas.
Etc.
Quanto ao consumo, há três tipos de consumidores:
para uns, basta o supérfluo; muitos se contentam com
o essencial; a maioria se conforma com as sobras.
Redundância é, nos monturos disputadíssimos
do lixão, recicladores se enfrentarem aos berros:
– Vá se catar, meu!

Sou fervoroso, mas só na hora de
esquentar água pra passar o café.

*As discussões estão sujeitas à moderação. Antes de comentar, leia nossa Política Editorial