A priori, a Inexpressão.
Na incerta exatidão de então, talvez um Nada desconforme por toda parte de lugar nenhum, por tempo algum. O absoluto incognoscível permeado pelo indizível, tudo indescritível.
Sim, antes do depois não havia o que descrever, muito menos com o quê. Incomensurável, a incompreensão dominava a percepção, a ausência do notável nem sentida era, permanecia só uma indefinição inconcebível. Assim continuou, mesmo sem haver quando nem enquanto. Quem sabe o insabível gerando o gerúndio.
Assim, muitíssimo antes das trevas e da luz, do trevo e do azul, da trova e do luar, as palavras não tinham razão de ser. Incógnitas no insapiente silêncio pré-trovão, as palavras não se sabiam a si mesmas, nem se ensimesmar podiam. Sem fazer sentido, não soavam. Sem acepções, não destoavam. Sem senso de humor, não caçoavam.
Mesmo assim, no pré-caos cósmico, no improvável meio sem entorno, as palavras deviam estar contidas no incontível, onde, como cantaria o poeta bilhões de anos após, cabe o incabível. Nessa remota impossibilidade, a proto-palavra, num impronunciável fenômeno, se plasmou a si própria. Uma quota de quiproquó químico, quanticamente quieto.
Incontáveis eternidades mais tarde, numa imponderável micro-explosão no infinitesimal átimo de auto-conhecimento da proto-palavra (decerto concomitante com uma inquantificável macro-reação do resto inquieto), um sismo reverbera entre o Nada e o Tudo, à beira do caos. O infinito tonitroa no vácuo, ainda ininteligível.
O anti-universo regurgita a matéria e a anti-matéria, maravilhas primevas que ficam sem adjetivos. A grande interjeição inicial, matriz de todas as exclamações diante da vida, não é registrada.
A pirotecnia avança em todas as direções, espalha o fonema existencial, num rastro de promessas substantivas, rumo ao novo. O vazio está grávido, sua natureza é quase audível.
As convulsões evoluem para contrações. O conteúdo anseia por se expressar. Há revelações aspirando por sonoridade. Prontos para se desentranhar do espaço indecifrável, conceitos inéditos se insinuam. Logo haverá fronteiras entre aqui e lá, hoje e ontem. Advérbios que farão história.
Eis que tudo se inclina para se declinar. Algo se projeta. De si para si, do sempre para o já, do menos para o mais, do sei-lá-o-quê para o entendível. Do mistério maior para um mistério menor.
Agora sim: neste princípio já pode ser o Verbo.
(Texto originalmente publicado no Jornal Extra Classe, em out/06)
Faz tempo Luis Fernando Veríssimo
definiu de uma vez por todas:
“Brasil – esse estranho país
de corruptos sem corruptores.”
Um flagrante de corrupção e os brasileiros
entram em choque. Chocado eu fico só
de pensar em quantas ocasiões como essa
ocorrem diariamente sem ser registradas.

Ah, que segurança seria se, ao redor, a gente
visse tanta ordem como se vê tanto progresso.
A diferença entre as catástrofes naturais
e as tragédias humanas é a autoria.

Eu também digo mesmices.
Mas não do mesmo jeito que os outros.

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