| A memória é o youtube da mente. Estão lá todos os filminhos que já vivemos. Também são arquivados os filmes que já vimos, os que achamos que foram vistos, até mesmo os que inventamos. Todos continuamente mixados e remixados, inclusive entre eles, mixórdia de imagens. São projetados da testa pra dentro, pela emocionada projetista de plantão, a Lembrança, na tela íntima de cada um. Diferentemente da net, o acervo não tá tão bem organizado, é impossível catalogar. Não temos canais, controle de exibição, nem busca eficiente. Às vezes se quer acessar um filminho e ele parece inacessível. Noutras, a gente não quer rever nada e ele roda assim mesmo. Cada youtube interno supera zilhões de vezes o volume do youtube real, quer dizer, virtual. E por mais compartilhado que seja o que se vê a dois, em grupo, os youtubes individuais jamais conterão as mesmas cenas. Estamos todos sós em nossas salas. E na hora do tilt final, amém, dizem que passa um longuíssima-metragem, inteiro. Mas só os entubados assistem reprises. |
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| Você sabia o que sabe o sabiá?
(Atendendo a inúmeros pedidos – todos meus – republico este texto de primaveras passadas) Felizes são os sabiás dessa terra com cada vez menos palmeiras. Eles abrem o bico, a partir das 3 da madruga e, pela gana do gorjeio, não estão nem aí para as falências e inadimplências nacionais, estragos sociais e naturais. São a própria tenacidade emplumada. Os sabiás, insistentes na primavera e persistentes no verão, ignoram o desânimo político da nação ou a apatia do seu povo às vésperas de novo vespeiro. Estufam o peito e, por um não-buscado contraste, soam vigorosos, como um decreto impondo imperiosa esperança. Você ali, alerta sob as cobertas, sem nem vestígios do amanhecer, e os sabiás comandam algo que eles – e nem você no seu íntimo – sabem que ainda existe para ser comandado. Você rola um pouco na cama, volta a adormecer. Até soar o infalível clarim dos sabiás outra vez, a aurora no tímpano. Esses sabiás, como diria um cronista menos cético que eu, talvez sejam as derradeiras sentinelas de tempos novos. Enquanto trinarem os sabiás, tudo estará bem. Nada irá piorar. Você deita com as derrotas do dia pero, no aconchego das enxergas, espera pelo canto salvador dos sabiás. Que logo vem, em três ondas matinais, sucessivas, a intervalos de ressono. E sempre alto, sempre forte, sempre firme, o entusiasmante canto do sabiá. Que ave! Altiva, como nós em épocas menos desgovernadas. Auto-confiante, como você em tempos de mais iniciativas. Animada, como eu noutra cidade nesta mesma cidade. Quem sabe seja esse o ritmo que os sabiás tentam nos devolver: a retomada de nós mesmos, diante de nós mesmos, uns perante outros. Missão quase impossível, a dos sabiás. Sem ecos de cidadania ativa, ouvidos moucos às vergonhas, sonâmbulos sob o sol, murchos de engajamento, num auto-exílio da vontade, tudo o que nos resta são os sabiás. Acordar com eles, e por eles, reanimados e reativos, sem bocejo e sem a irritabilidade vinda dos extintos galos, isso sim seria recuperar alguma mínima determinação. Com seu canto em dois tempos, seu retinido acelerado e sua empolgada freqüência diária, o sabiá é um pássaro com brio de inflar homens. Trinitroantes de galho em galho, ferrenhos de bairro em bairro, otimistas de cidade em cidade, alvissareiros de estado em estado, os sabiás podem levantar o país, já que quero-queros, joões-de-barro e bem-te-vis cantam pra si mesmos. Não sabem mandar recados como sabem os sabiás. Para um Brasil quase sem símbolos e valores respeitáveis, há que respeitar o simbólico sabiá. Se voar é com os pássaros e cantar teimosamente é com os sabiás, reagir é com o ser humano. Melhor aguçar os ouvidos. |
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