| Quem semeia dúvidas, colhe angústias; quem planta hipóteses, hesitações. Daí a safra, na mídia, de perguntas influenzadas por algum vírus histérico. As questões que mais espirram na cara da gente são essas: Lugares públicos: fugir ou não Se você tem condições de sair do planeta, você vai conseguir ficar longe dos vírus. Senão, acostume-se com a histeria: a Terra é um lugar público, com sérios problemas de ventilação. Máscaras de proteção: usar ou não Como as pessoas já são mascaradas na vida pessoal ou profissional, tanto faz um pano na cara. Vital é, na hora de espirrar a menos de um metro de outra pessoa, dar uns passinhos para trás. Está provado: o vírus não sobrevive à boa educação. Velório de infectado: ir ou não A rigor, só o vitimado é obrigado a comparecer. Mas é importante usar a inteligência nessa hora: quando alguém morre por gripe, o vírus também ganha seu atestado de óbito. Carne de porco: comer ou não Suínos não transmitem o vírus. E se até os gastrônomos já fizeram o teste-drive, por que salivar em vão? Agora, é evidente que porco não come porca gripada. Chimarrão: suspender ou não Bobagem. Se o vírus gostasse de água quente estaria nas piscinas térmicas; só nas piscinas não aquecidas os nadadores se gripam. Janelas: escancarar ou não Sempre é bom: vai que um vírus nunca tenha ouvido falar no verbo defenestrar e caia do peitoril, intoxicado por ar puro. Mãos: lavar ou não Ora, você já viu coisa mais nojenta que apertar mãos pegajosas? De nada adiantam as pesquisas se os imundos continuam atrasando a Ciência. Afogue seus vírus numa pia já! Álcool: passar ou não Por dentro, não resolve o risco de contaminação. Por fora, utilize gel, já que uísque e outros produtos etílicos são fatais somente a vírus abstêmios. Copos: compartilhar ou não Depende. É muito difícil beber no mesmo copo ao mesmo tempo. Claro, o vírus pode morrer de indecisão sobre qual contaminar. O mais profilático é um rodízio pra ver quem lava a pilha de copos na pia. Agasalho: vestir ou não Peraí, se você deixar de se agasalhar sob temperaturas baixas, é capaz de morrer de imbecilidade antes que o vírus perceba a sua semi-nudez. Hospitais: evitar ou não Quando até médicos, enfermeiras e autoridades sanitárias evitam esses locais, é porque os vírus administram a situação por lá. Na hora da visita, consulte antes as bactérias de plantão. Aulas: adiar ou não O corpo discente propaga mais boatos sobre infecção que o vírus transmite a doença. Medicação: tomar ou não Pra não enriquecer o laboratório e não confundir o vírus com produtos ambíguos, seja radical no tratamento: substitua o Tamiflu pelo Tamofu. | |
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A dona Ema, viúva do seu Augusto Abreu, os pais dos meus amigos Odilon, Luis, Edson, Santiago e Beto, nos deixou sábado, 1/8. Por alguns dias não alcançou os 94 anos, pois não resistiu a perda do filho Odilon, falecido uma semana antes, após longa enfermidade. Nenhuma mãe, ou pai, merece essa quebra da ordem natural das coisas, em tempo algum, muito menos em meio ao merecido sossego da idade avançada. Meu apego aos meus amigos deriva, sempre, na direção das suas famílias. No caso dos Abreus, compartilhei um longo convívio regado a chimarrão, uma das mais calorosas circunstâncias que as pessoas podem desfrutar. Com as visitas e as rodas, a água e a amizade vão sendo sorvidas e todos se tornam queridos sem outro esforço que o erguer da chaleira e da cuia. E, claro, ouvir uns aos outros. Ouvir era um dos maiores prazeres de quem tinha acesso à porteira deles, ali na Cidade Baixa. Causos, histórias envolventes, reminiscências de quem acumulou épocas, a vida desfiada com vagar e o ouvinte suavemente preso à meada dos Abreus. Era tão bom que até meus filhos soltei no quintal, um pedacinho dos pampas. Durante anos inventei pretextos para estar próximo do que, afinal, quero salientar nessas lembranças. Seu Augusto e Dona Ema criaram os cinco filhos daquele jeito que já não se cria mais. Esse tipo de criação, antiga mas definitivamente modelar, carregada de valores que vão rareando na urbe, é o que eu chamo de patrimônio humano. Quando penso nessas existências, simplesmente dedicadas a preservar o que existe de melhor nas pessoas, é difícil não louvar o efeito ao redor. A contribuição de casais como a Dona Ema e o Seu Augusto para uma sociedade é inestimável. São famílias exemplares, que geram outras. No entanto, não é mais costume ressaltar vidas honradas: as loas e as homenagens públicas são sempre para os poderosos, as celebridades, os ditos grandes vultos. Por atos e fatos que na maioria das vezes em nada ajudaram a humanizar nossa gente, ou mesmo harmonizar sua época. Pois eu discordo desse jogo de cena. Escolho lembrar a Dona Ema e o Seu Augusto. Apenas por terem sido quem foram, genuínos e afetivos, e por legarem aos descendentes uma preciosa bússola em seus corações. Só por passarem dignidade e integridade adiante, como um mate moral, Seu Augusto e a dona Ema já mereciam uma estátua de palavras. | |
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