| As tragédias adoram as tecnologias. Sem os bilhões de automóveis, a mortandade nas estradas e ruas inexistiria. Sem as estruturas de ferro e aço, não haveria arranha-céus e conseqüentemente nem os grandes incêndios ou desmoronamentos descomunais. Sem a evolução da náutica, estaríamos ainda apenas nos naufrágios das caravelas, com pouca tripulação e passageiros. Sem os avanços dos submarinos, não existiriam as dolorosas lembranças do Kursk, Trieste e tantos que sumiram nas profundezas. Sem os comboios de trens, nada de descarrilamentos e centenas de vítimas a cada vez. Sem a conquista espacial, nenhuma explosão na estratosfera. E sem as milhares de aeronaves no ar ao mesmo tempo, nenhum acidente pavoroso nos congelaria o coração. A tecnologia superdimensiona tudo, desde o gigantismo de veículos e construções, até a condicionante ilusão de controle e segurança. A cada novo estágio de aplicação tecnológica correspondem novas falsas garantias. A humanidade adora embarcar, morar e viver no conforto, um anseio natural da espécie, assim como já se acostumou a ignorar riscos e a superestimar sua fragilidade física. Se rebentar em tudo que é desastre, individual ou coletivo, parece ser a constante da trajetória da humanidade. Mas não é. Desastres fazem parte das leis das probabilidades, a tecnologia mais beneficia que prejudica, é evidente. Nem por isso a tecnologia, qualquer uma, está isenta de julgamento. Principalmente aquela que busca a superação dos limites do bom senso, entre outros. Edifícios de 500 andares e aviões para 600 passageiros são exageros de confiança no progresso, que cobra em vidas os erros de cálculos ou falhas de equipamentos. Sem falar na mais terrível categoria de arrogância, a perfeição humana. Sem essa arrogância, que evoluiu em paralelo com a tecnologia, não haveria tanta falha humana. Mas aí já é querer demais da espécie. (O problema maior da tecnologia é que até para escapar de seus maus momentos necessitamos de mais tecnologia. Por isso morre tanta gente tentando socorrer outros tantos.) Há muito tempo a tecnologia alcançou o ponto da fascinação, seja micro ou espetaculosa. Ela é irreversível e a nós, seus míseros dependentes, cabe suspirar pelo acaso salvador e torcer para ficarmos do lado das cifras mais bondosas das pesarosas estatísticas. Este mundo seria um tiquinho mais consequente se, por efeito das trágicas manchetes, houvesse menos louvação à tecnologia. |
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| As ânsias, ansiosas que são, anseiam ansiar sem ensaiar. Basta um ensejo, e seja o que o desejo almejar. As ânsias são os corcoveios das tensões e pulsões humanas, voltas e reviravoltas internas que fazem das tripas coação. Como não são poucas as ânsias, daí as alternâncias desde a infância. Com ou sem constância, com maior ou menor importância, causam em nós discrepâncias que geram concordâncias e discordâncias a partir das nossas redundâncias. É que delas não podemos manter distância, pois dos nervos têm mínima eqüidistância. Nos fazem querer com toda a ganância, ampliam a arrogância, sobre nossas vontades exercem predominância. Por isso queremos fragrâncias e elegância, por isso praticamos militância, por isso cedemos à intolerância, por isso adotamos a implicância. Em meio à jactância, partimos pra ignorância, pra chegar rápido à beligerância, que custa à alma humana uma exorbitância. Ao dar vazão a tanta ânsia,não somos mais nós e nossa circunstância. Somos nós e nossas piores instâncias, há muito desgarrados da paz da estância. Agora somos nós e a nossa inoperância, reduzidos à insignificância, uma nulidade que nem precisa vigilância. Pelo corpo brotam protuberâncias, ou aparecem reentrâncias, por onde vazam as substâncias das ansiedades. É, as ânsias nos tiram a relevância, nos deixam a um passo da mendicância, incapazes de mais observâncias. Na verdade, quando as ânsias são demais, só uma coisa nos comporta: a ambulância. Que se espera ansiosamente. |
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