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Antes que comecem as dificuldades para levar adiante este inadiável projeto de reestruturação prisional, aí vai minha modesta contribuição. De vez em quando sinto …

Antes que comecem as dificuldades para levar adiante este inadiável projeto de reestruturação prisional, aí vai minha modesta contribuição. De vez em quando sinto essa necessidade de ser útil, deve ser algo no ar do outono. 

A quantidade de presídios

Essa é uma equação fácil: vamos dividir o estado em tantos presídios quantos forem os municípios. Como já tem muita cerca espalhada pelos pampas, basta reorganizar a cercadura. Depois, pra não encarecer com demolições e reconstruções, se aproveita a infra-estrutura de cada metrópole, cidade, vilarejo, povoado,o que for. Assim: aproveita os bairros e demarca a área com muros. Aí já se vê como aumenta a disponibilidade de prisões, dá e sobra pros maus e até pros bons elementos. Para favorecer ainda mais a acomodação, vamos expandir as unidades carcerárias: cada prédio, cada condomínio, inclusive casas, fica tudo automaticamente transformado em cadeia, com a vantagem que nem precisa gradear, já estamos bem servidos inclusive de câmeras. Por fim, até em cada residência dá pra instalar celas avulsas. Não venham me dizer que vai faltar presídio depois dessa remodelação toda. 

A vigilância nos futuros presídios:

Fácil, também. Basta aproveitar os contingentes policiais, militares, civis, eclesiásticos etc, disponíveis aos bandos pelaí. O que não falta na urbe é otoridades, gente que adora reprimir e é obcecada por controlar, mandões com ou sem farda, fiscais com ou sem uniforme: segurança particular, vigias, vigilantes, guardinhas municipais, síndicos, porteiros, imensas legiões com vocação para dizer teje preso! a toda hora. O maravilhoso desse projeto é que não precisa treino, nem mesmo mobilizar ninguém: é só investir cada voluntário desses num cargo elementar e autorizar o cara a exercer o policiamento onde ele já atue, seja na sua própria rua, na sua empresa, igreja, supermercado, qualquer estabelecimento. Assim se divide a vigilância entre todos, em qualquer espaço. Pense em segurança ao seu lado 24 horas por dia, dentro de casa, até na mesma cama! Como ninguém pensou nisso?! 

Uma nova administração dos presídios:

A partir deste inovador conceito gerencial, a violência continuamente controlada por milhões de vigilantes, cada crime seria resolvido na hora, pela otoridade mais próxima. Crimes em família resolvidos na própria família, que autuariam e condenariam o criminoso a viver anos fechado no seu quarto. E assim por diante, com uma melhor distribuição de assassinos, assaltantes e estupradores por zonas com baixa densidade de ameaças. Seria enfim a igualdade social por outros meios, uma fraternidade de Grandes Irmãos, ladrão prendendo ladrão, promotores e juízes autodidatas, tribunais nas sinaleiras. Uma nova era. Não me agradeçam. É pelo bem do nosso estado.

No fundo, no fundo, todo cheque é sem fundos. No fundo de qualquer gaveta tem outra gaveta, muito mais profunda. No fundo do mar, o abismo se abisma consigo mesmo. No fundo da memória imobiliária, as casas tinham fundos. No fundo das fendas, há frestas para outras profundezas. No fundo, os fundilhos não terminam ali. No fundo dos sofás há gente que se afundou e nunca mais foi vista. No fundo, até as coisas mais rasas têm a sua incalculável fundura. No fundo das tumbas, múmias de órbitas fundas contemplam as partes mais curtas da eternidade No fundo das redes busca-se uma profundidade maior para o futebol. No fundo dos mais fundos poços de elevadores se acumulam vertigens das alturas. E no fundo bem fundo dos poços, a caçamba passa sede. No fundo das coxias, depois que o teatro se afunda na escuridão, nem as sombras contracenam. No fundo da fundição, numa fornalha metafísica, fundem-se o tudo e o nada. No fundo do inafundável Titanic afundou-se o mito da tecnologia perfeita. No fundo dos teus olhos eu me olho e me vejo melhor.

Autor

Fraga

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