Numa feira livre de produtos orgânicos:
Com alta cotação nas bolsas e sacolas, tomates, berinjelas, cenouras, morangas e outros legumes sem agrotóxicos surpreendem a clientela: exigem aparelhos digestivos não intoxicados. O produtor agrícola bota banca.
Numa câmara ardente:
Parentes e amigos do falecido percebem o esforço que as funerárias fazem para melhorar a aparência do cadáver, com um efeito colateral no excesso de maquiagem facial: o morto ganha um nariz avantajado, semelhante ao de um boxeur. As fábricas de algodão incentivam o procedimento.
Numa CPI qualquer:
Pareceres e Depoimentos, Provas e Contraprovas, Acusações e Defesas promovem uma festinha particular onde a atração é a banda Rabos Presos, que interpreta sucessos em CPIs passadas, onde quem dançou fomos nós, sempre. O show não pode parar.
Num espetáculo com lei de incentivo:
Enquanto não soam os três toques para o início da apresentação, a plateia aproveita o tempo para se perguntar por que a grande arrecadação de recursos de patrocínio não beneficia o espectador, que paga por um ingresso muito elevado. A bilheteira dá de ombros.
Numa passeata de travestis e transformistas:
Pessoas com opções sexuais diferentes da maioria saem às ruas para protestar contra as ameaças, agressões e crimes de que são vítimas por causa de suas escolhas e atividades. O público, indiferente, nem parece ter clientes entre eles. A polícia nega proteção pro evento e pras eventualidades.
Num desmanche em alguma periferia:
Artesões munidos de delicadas limas aperfeiçoam a técnica de alterar números de chassis a ponto das montadoras adotarem os modelos de numeração praticados por esses talentosos funcionários. A Roubato certifica.
Num lar de crianças abandonadas ao nascer:
Meninos e meninas fazem campanha para atrair gente que prefere adotar cães e gatos: salientam que suas rações são mais baratas e, além de aprender mais rápido truques como rolar no chão, buscar objetos atirados longe e fingir de morto, podem atestar de coração o afeto aos pais adotivos, o que nenhum animal pode fazer. O canil e o gatil lotam.
Num tribunal com foro privilegiado:
O deputado com dezenas de multas e infrações de trânsito, com pontos na carteira além do limite para a cassação, e mais a culpa por feridos e mortos em seu caminho, será condenado pelos juízes a manter este padrão irresponsável nas ruas, condizente com a sua imunidade parlamentar. A Justiça pega carona.
Etc.


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