Olhando assim, do vasto mirante imaginário que denominamos perspectiva de novo ano (de onde se avista essa paisagem ilusória chamada expectativa), tá tudo bão: o horizonte é tão convidativo que o cronista tem até preguiça de abrir o guarda-chuva do pessimismo. Por isso, pelo ócio cético, em vez de falar em abrigos nucleares (o freezer da Guerra Fria tá temporariamente desplugado), em abrigos das intempéries (as águas de março se dezembraram) ou mesmo nos abrigos sociais (os albergues nem conseguem atrair albergados), melhor um olhar mais prático. A rua me chama. Tenho uma tese: os abrigos de ônibus são uma enganação funcional. Não existe um abrigo que abrigue. De todos os feitios e materiais, só simulam sua função, apenas aparentam a proteção que deviam oferecer. Perguntem a quem padece debaixo deles. Esses abrigos que se vêem nas cidades são deficiências arquitetônicas projetadas por deficientes técnicos de gabinetes. Mal concebidos e mal construídos, a maioria consiste em quatro paus e um teto reto. Não precisa ser engenheiro pra aquilatar a desproteção dos usuários diante do sol abrasador, do açoite dos ventos, dos banhos de chuva. A lógica dos elementos e a obviedade climática deviam reger a concepção de abrigos: é lógico que têm de ter abas nos quatro lados e, na falta delas, é óbvio que necessitam paredes no fundo e nas laterais. Senão, todo abrigo torna-se uma contradição em termos: debaixo dele entra o que não devia entrar, sol e calor e vento e chuva. Sob ele, as pessoas ficam desabrigadas enquanto o ônibus não vem. Sem esquecer da falta de iluminação à noite, um ponto fixo de insegurança. E nos bairros melhores, o desprezo pelo cidadão ganha a ironia da mídia publicitária: os abrigos desabrigam as pessoas enquanto abrigam atraentes painéis luminosos. Quer dizer, os usuários são importantes como consumidores mas não têm a menor importância como pessoas a merecer conforto. É uma tendência desumana: as prefeituras comercializam o espaço, recheiam os cofres com a verba dos anunciantes e nada disso reverte em benefício de quem dá audiência aos anúncios. No fundo, é incompetência e inércia das autoridades municipais, que poderiam captar uma cota dos lucros dos concessionários dos transportes, em favor do povo que lhes enriquece. Afinal, o dinheiro arrecadado poderia servir à comunidade: aplicado na melhoria dos modelos de abrigos, os contribuintes teriam uma demonstração de respeito por parte do poder público. Ops. Não adiantou nada eu tentar conter meu pessimismo. Acho que tudo vai continuar como estava. A menos que surja um abrigo modelar no horizonte. | |
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O supetão da notícia me chegou dias depois dele ter-se ido. O que me levou à melhor lembrança do poeta: o início do nosso convívio, em 1972, numa agência de publicidade. A cada visita ao poeta dono da empresa, trazia uma pasta com poemas recém paridos, como dizia. Anos depois, o retrospecto da sua arte só enfatizou o privilégio de ouvi-los pela primeira vez: a negritude no papel e na pessoa já eram veementes naquele tempo. Veemência que virou livros e consciência de milhões de brasileiros, e ajudou a deixar o 13 de maio oco de sentido. Nosso último reencontro foi na Feira do Livro de 2007, e lá ainda estavam a altivez e a suavidade que me cativavam, combinadas de forma principesca. Também reconheci o lampejo criativo, revi o sorriso divertido. Como tantos artistas em que a vida e a obra são unha e carne, Oliveira Silveira soube semear idéias, numa lavoura étnica admirável. Só mesmo suas incisivas palavras para compensar um pouco da sua apressada ausência. Fiquem com ele: Obrigado, minha Terra/ Obrigado rios de São Pedro | |
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A dor ensina a gemer. Sofredores de câimbras se reúnem e fundam um clube. Uma vantagem os acéfalos levam sobre os cabeçudos: Quando alguém com má postura monta em lombo São poucas as pessoas que suportam as dolorosas Que relaxantes, que nada: Masoquistas com problemas no nervo ciático Nevralgias podem incomodar todo tipo de pessoa, Etc. | |
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