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Acessórios telefônicos

O telefone – este cordão umbilical auto-umbigado – sempre veio, a cada etapa tecnológica, com um acessório extra, vulgo usuário. Desde os modelos ancestrais …

O telefone – este cordão umbilical auto-umbigado – sempre veio, a cada etapa tecnológica, com um acessório extra, vulgo usuário. Desde os modelos ancestrais do celular (magneto, manivela, tipo carimbo, até o sem-fio), gente é sempre uma extensão mecânica da maquininha.

No início, os telefones tinham descrentes da invenção em rodízio ao redor, cujo funcionamento precário da voz comprometia a eficiência da novidade. Eram bastante civilizados, usavam polainas e seu dedo indicador aprendia rápido.

No progresso da coisa, traziam uma família inteira acoplada, com membros que se revezavam ao gancho e no disco. Também apareceram aparelhos rodeados de funcionários, com punhos ágeis e fluência na língua. Graças a estes acessórios mais aptos, foi introduzida com sucesso a conversação telefônica no mundo.

Mais tarde foram apresentados acessórios de colete e gravata, com grande capacidade de coordenação de mãos, ouvidos e bocas. Os lançamentos vinham com multidões já ligadas às linhas, através de acessórios eficientes chamados telefonistas. A partir daí se propagou o uso e surgiram então os acessórios temporários, acionados por meio de moedas que traziam nos bolsos.

Por fim, trouxeram acessórios móveis, que não mais ficavam sentados a banquinhos do lado de mesinhas ou em pé junto a paredes. Todos já exibiam a síndrome da dependência do telefone, precursores dos dependentes de hoje. Esses acessórios ambulantes desenvolveram a aptidão para a conexão por horas a fio e aperfeiçoaram a histeria pelas chamadas a qualquer hora, em qualquer lugar.

Já o celular – este consagrado amplificador do ego – traz acessórios incríveis, que só faltam silenciar ou complicar menos a vida do usuário. O que mais surpreende, porém, não são os programas inúteis, as ferramentas desnecessárias, os recursos inaproveitáveis. Além das surpresas inéditas a cada geração semanal, o celular traz acessórios que deleitam os não-proprietários: cada produto agora vem com um ser humano fundido ao design. São acessórios ruidosos, em diversas cores e tamanhos, com idades variadas, fixos ao celular através da orelha. Os modelos básicos incluem indivíduos conectados 24 horas por dia, de crianças antenadas a adolescentes emepetresados, de adultos pré-agendados a idosos de bateria fraca. Todos dependurados por um fio em suas neuras de chip, alimentados por altas doses de ansiedade digital. Esses acessórios humanóides complementam perfeitamente os gadgets, seres às vezes plugados a dois ou três aparelhos. Mas a indústria não pára: já planeja equipamentos mais avançados, que chegarão ao mercado com bebês inclusos na embalagem e no futuro serão disponibilizados modelos com cadáveres eternamente ligados à rede de telefonia.

Mas tem quem pense que os acessórios são os telefones.

… aos poucos, com alterações por modismos, o hábito gaúcho do chimarrão se descaracteriza: agora se encontra erva-mate com ingredientes aromatizantes e flavorizantes, surgem garrafas térmicas espalhafatosas, vendem cuias de vidro e de plástico e bombas com enfeites temáticos de simbologia e gosto duvidosos. Desse jeito, o trocadilho se impõe fácil: em vez de ir pra cuia, a tradição vai pra cucuia.

Esta linha tem no total trinta e seis letras
Com a segunda chegam a sessenta e sete
Para noventa e oito este verso remete
A cento e trinta e quatro o quarteto soletra

Acumula agora cento e setenta e aí desperta
Nas duzentas e cinco a dúvida mais solerte
Se comporá duzentas e quarenta letrasets
Duzentas e setenta e seis Fraga já perpetra

Por trezentas e onze nova estrofe desliza
Avalia trezentas e cinqüenta o ábaco obsoleto
Rodopiam trezentas e oitenta e sete na brisa

Quatrocentas e vinte e seis à beira dum terceto
Em quatrocentas e sessenta e duas finaliza
Com quinhentos caracteres eis inútil soneto

(Exercício lúdico, típico dos jogos de engenho, onde mais importa o controle do cálculo que o conteúdo do enunciado. Para conferir gradativamente, a ferramenta de contar palavras do word auxilia.)

Autor

Fraga

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