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Panorama visto sob a ponte

Existem 1001 maneiras de ganhar a vida. Mas, a loteria genética – que sorteia talentos natos excepcionais e QIs altos com evidente avareza – …

Existem 1001 maneiras de ganhar a vida.

Mas, a loteria genética – que sorteia talentos natos excepcionais e QIs altos com evidente avareza – e a megasena social – que premia bilhões com cruel subnutrição – nos obriga à primeira e extensiva subtração.

Restam umas 499 maneiras.

Depois, por entre as impiedades das sociedades, sob a desagregação familiar e a decadência dos valores éticos e morais (qual coisa leva à outra?), por deformações na criação ou falta de assistência afetiva (ou ambas), perdem-se infinitas chances de a criança sobreviver às estatísticas urbanas de infelicidade física e emocional.

Sobram mais ou menos 350 maneiras.

Aí, com a falta de adequado ensino à maioria da população, limitações de vagas, dificuldades de aprendizado, barreiras sistemáticas aos cursos superiores, pronto, diminuímos um outro tanto.

Baixam as maneiras para algo em torno de 300.

A seguir, por deficiências típicas e contumazes dos sistemas de formação profissional – do ensino técnico depauperado às áreas acadêmicas defasadas – se eliminam incontáveis modos de preparo à altura das exigências do mercado.

Agora somam 201 maneiras.

Com a falta de crescimento econômico, cresce a falta de oportunidades para o primeiro emprego, sem falar em outras, para o segundo ou o décimo-oitavo, e, com isso, se nivelam os horizontes da sobrevivência.

Não passam, calculam-se, de 143 maneiras.

Então, se pensarmos que é melhor tentar ganhar a vida com dignidade, sem mau-caratismo, puxação de tapete, competição selvagem, corrupção, subserviências, temos que reduzir um montão a expectativa.

Ficam 88 maneiras.

Daí, se se recusar a extrema exploração capitalista através da globalização, o declínio dos direitos trabalhistas, ausência de vínculo empregatício, o desamparo da terceirização e toda a insegurança da informalidade, desconta-se uma boa porção.

Mal chegam a 20 maneiras.

Se levarmos a sério a capacidade humana de suportar elevados níveis de estresse, rotina e tédio, combinados com hipersensibilidade para angústia, úlcera e tendência ao suicídio, putz, a coisa se reduz mais ainda.

São só 6 maneiras.

Já emprego seguro, trabalho prazeroso, justamente remunerado, ambiente agradável, bons colegas, próximo de casa, bem, aí aparecem milhares e milhares de candidatos para cada vaguinha. Tem que cortar.

Resta exatamente uma maneira. É a sua vez, afinal, de vencer na vida.

Mas aí é tarde. A vida já venceu você.

… O cão não justifica a coleira. Tudo que não tem borda não transborda. Os patifes não se espatifam. O que é impagável não dá pra rir. A chave-mestra não ensina palavras-chave. Não invejar é invejável. A borracha não conserta os erros dela. O que mais tem é não vem que não tem. Para o mau entendedor, nem um não basta. Outrossim não é avesso de senão. Quem não perde uma luva mantém o par. Para o agnóstico não há prognóstico. Não se cometem erros de concordância com o pomo da discórdia. O escuro não encobre o medo. Sem ruas não há arruaças. Etc.
Outro show ambigramático lá em Singapura. Desta vez, para o NAC #7 (Nagfa Ambigram Challenge) a proposta de Nagfa (o casal Naguib & Fadilah, meus amigos) foi a frase Shark Attack. A adesão foi em massa – 44 inscrições – e a repercussão, internacional. Além do volume nas participações, a criatividade transpareceu também na variedade de soluções: ambigramas de 180º, de 45º, simetrias duplas, reflexões e espônimos (quando uma mesma letra pode ser posta em diferentes posições e formar uma palavra). Pra não variar, perdi o prazo e fiquei de fora. Agora, contive o entusiasmo pra selecionar apenas 10. Para conhecer o engenho de cada ambigramista, há um link sobre as imagens. Clique e surpreenda-se.


Autor

Fraga

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