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No meio do meio-termo

É terrível o meio-termo. O meio-termo é uma ameaça à definição, detesta os dois lados do muro. É contra o oito e muito mais …

É terrível o meio-termo.

O meio-termo é uma ameaça à definição, detesta os dois lados do muro. É contra o oito e muito mais contra o oitenta. O meio-termo tem a diplomacia da acomodação – o negócio dele é não se incomodar.

Meio-termo não fede nem cheira . Não mete o nariz onde não é chamado, e onde o é, vai sem o olfato e suas glândulas sebáceas. Prefere o odor da omissão ou a essência do não-envolvimento. Tem a pituitária mais descompromissada que existe. O sovaco mais asséptico que se conhece. O meio-termo não funga nem furinga. Aspira não aspirar. Dele emana o característico perfume do eterno indiferente.

Meio-termo jamais terá febre. Pra que se esquentar, se pode viver na calmaria dos termômetros na gaveta? Sua temperatura é absolutamente normal – nunca tem suores, jamais terá calafrios.

Fã do mais ou menos, adora média e está sempre na base dos 50%. O meio-termo dá palpite pela metade, opina não muito pelo contrário e diz o que pensa medianamente. Não se arrisca pelos extremos nem petisca nem arrisca além da ágüinha com açúcar. Sem o meio-termo não haveria o politicamente correto.

O meio-termo joga exclusivamente pelo meio do campo e senta à mesa só ao meio-dia. O meio-termo se posiciona muito bem na vida: nem deitado nem em pé, nem à frente nem à ré. Agachado é a sua postura original. Está sempre acima do ordinário e abaixo do extraordinário. Exatamente sobre o lugar-comum.

Ah, o meio-termo tem o vocabulário mais ensaboado que já se ouviu. Usa argumentos de gelatina e idéias de joão-teimoso. O meio-termo é fogo – lento. O meio-termo é dose – pra leãozinho. O meio-termo é um saco – com hérnia.

Eu não tolero o meio-termo e o meio-termo é o que mais há.

Bugigangas


Felicidade tem que ir buscar. Só a desgraça é entregue em domicílio.

Perto dos fedapês de carreira, os verdadeiros descendentes
de prostitutas têm mães honradíssimas.

A pior distorção a respeito dos prazeres da carne é a antropofagia.

Se as preocupações fossem pa ficar entaladas na garganta,
a natureza teria nos dado um esôfago horizontal.

Não custa lembrar: as pessoas com o rei na barriga vão
ao trono pela mesmíssima razão das demais.

Marido traído é sempre o último a saber. Em compensação,
é o primeiro a ser enganado.

Nada ativa mais a nossa memória que os defeitos alheios.

Diferenças típicas

A diferença entre…
… uma pessoa civilizada ao telefone e outra sem educação ao celular é gritante.
… qualquer rio brasileiro maltratado por despejos e os rios europeus protegidos por legislação rigorosa é clara como a água.
… a realidade e a fantasia é imaginável.
… as salas de espera dos consultórios conveniados e as filas do SUS é desesperadora.
… um fofoqueiro e um espalhador de boatos é intrigante.
… a censura oficial e a autocensura é impublicável.
… entre os hippies de 40 anos atrás e os acomodados de hoje é pacífica.
… a Comédia Humana e a Divina Comédia é dantesca.
… um cheque com cobertura e um sem fundos é inaceitável.
… um anão e um homem com disfunção da hipófise não tem tamanho.
… uma harpa paraguaia e um tambor é retumbante.
… os quatro Cavaleiros do Apocalipse é bestial.
… um mágico amador e um prestidigitador profissional é pura ilusão.
… suborno e propina é impagável.
… o reconhecimento em vida e a homenagem póstuma é lapidar.
… o sexo masculino e o feminino é excitante.
… qualquer doença e a hipocondria é sintomática.
… um interrogador da polícia federal e um PM é inquestionável.
… a psiquiatria e a antipsiquiatria é angustiante.
… uma miopia estacionária e uma cegueira progressiva é visível.
… a nostalgia e o saudosismo é muito antiga.
… a memória de elefante e a amnésia dos ingratos é inesquecível.
… as diversas leis das probabilidades é mera coincidência.
… ditados e axiomas é proverbial.
… queda do cabelo e calvície está por um fio.
… uma mulher de formas perfeitas e outra menos favorecida pela natureza é palpável.
… o Estrangulador de Boston e Jack, o Extirpador, é visceral.
… todas as substâncias minerais é elementar.
… presidentes gordos e ditadores magros é de regime.
… a genitália da Sininho e a da namorada do Pequeno Polegar é mínima.

Etc.

Um revistaço

No mormaço do marasmo na mesmice das bancas, enfim sopra uma brisa mensal pra refrescar a cuca. Já está entre nós a revista piauí, edição #1. No conteúdo, nenhuma pauta que não seja muito interessante, nenhum texto que não seja bem escrito, nenhuma linha que não seja inteligente. No visual, nenhuma página que não seja uma beleza. A piauí, por conta de uma proposta editorial inovadora e um projeto gráfico todo seu, é estimulante a cada artigo, a cada ilustração. Uma revista carioca na origem e brasileiríssima no foco. Há muito tempo o jornalismo nacional não dava ao leitor tamanho prazer ao virar das folhas, e por menos de 8 pilas! Mas, corra. Por ser imperdível, a piauí também é sumível. (Informações gerais aqui, no site da piauí)

Ambigramatices

Mais um presente – e duplo! – de um ambigramista. Agora é de um novo amigo, Cleber Faria, um jovem artista brasileiro, com site próprio e tudo. O cara já nasceu afiado pra coisa, jjá foi linkado até em Singapura! (Ele já está participando do NAC #3, o desafio internacional de ambigramas de Nagfa. Aguardem o próximo resultado) O Cleber, entusiasmado e habilidoso, criou logo duas versões do meu nome: esse Fraga em fundo azul é um ambigrama de reflexão central, se lê a mesma coisa pra lá e pra cá; e o outro Fraga, todo colorido, é um ambigrama de 90º , um dos mais difíceis de conceber e realizar – você lê o mesmo nome tanto na horizontal como na vertical. Essa habilidade pode ser conferida em muitas outras criações suas, clicando aqui. Gracias, Cleber!

Autor

Fraga

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