| Setas pelos setes cantos, em todos os sítios, sites, situações. São setenta setilhões de setas, de setembro a setembro. Essas setas dobram vias, quebram rios, encobrem luas. E furam céus e ferem sóis. Atravancadas na paisagem, atravessadas na miragem, atracadas na garagem, atrapalhadas na viagem, atrasadas na mensagem. Essas setas. Elas saem da aljava implacável da moderna comunicação, disparadas pelos cegos técnicos que acreditam em caminhos preestabelecidos, em atos previamente determinados e em interpretações definitivas. São as bengalas pontiagudas de gerações deficientes do mais primordial sentido de orientação. Para esses, essas setas são um colírio para os olhos. Assim as setas assomaram. Assumiram muros, mares, mirantes e moradias. As maiores setas somaram seu sururu e sumiram com o Suriname. As setas assombram, assoprando e assobiando as suas certeiras insinuações sobre nós. São como dardos envenenados de poluição visual, flechando a retina, fechando a saída. Nem se pode combater à sombra. Certas setas são antigas, do arco da velha. Igual ao dedo em riste da mão triste da mãe do medo. Apontando firme pra obediência tomar forma, conforme a avó de todas as setas pontificava. E as novas setas indicam o mesmíssimo desaprumo do bicho homem, dependente de um risco na caverna ou um traço na tela do computador. Como as setas, estamos emplacados, enquadrados, embandeirados, na caótica selva dos signos hodiernos, odiosos e odientos. Incertas setas com destino dirigido e desatino digerido. As setas põem esse lado pra cima, botam mão única em nossos dois braços, direcionam os meus e os teus abraços. As setas nos mandam pra lá pra cá, e não é mais um bolero. Não há retorno pro livre arbítrio. Entre à esquerda, vá à direita, siga em frente: perca-se de uma vez atrás do seu nariz teleguiado. As setas nos levam a motéis, mesmo que você só queira ir ao belvedére como antigamente.Tem que trepar com as setas. Nos conduzem ao hospital, embora o perigo assinalado ainda nem pinte. Há que morrer atendendo às setas. Nos enlouquecem, apesar de nos manicômios as coisas serem invertidas. Mas claro que a seta tem um parafuso frouxo. E vêm setas subindo e descendo pelas paredes, invadindo o espaço aéreo, embrulhando os produtos, embaralhando a visão. Tudo bem: com elas sabemos de antemão qual a próxima confusão, a futura desordenação. As setas acendem, apagam, iluminam, escurecem, brilham, ofuscam – tumultuam o começo, o meio e o fim do túnel. Eis a setas. Que nos fazem convergir para o automatismo, o roteiro programado, o gesto indicado. Que dispõem da nossa vontade, dispersando o pensamento, dispensando todos os impulsos. Lanças pontudas de um invisível autoritarismo, governante e desgovernado, sem voz, porém comandante. A munição preferida da zarabatana do design indutivo e imperativo. Setas, setas, setas. Em néon, acrílico, sprayadas, serigrafadas, pichadas, recortadas, desenhadas, apaineladas – assestadas sempre e sempre na pupila da multidão. Mirando o instinto de quem quer andar por aí. Angulosa ameaça à massa, condicionante à beça; Não resisto às setas. Um cupido criptógrafo me perfura o peito com suas setas subliminares e num tronco de árvore gravo um coração: meu nome trespassado por uma flecha que é só seta e mais nada nem ninguém. Estou imbecilizado, que é a maneira mais servil de convíver com as setas em derredor. Daí este mal encetado texto. |
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| Bom, definitivamente Bom pra burro é carroceiro paciente. |
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| Poeminhas a esmo I. II. III. |
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