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Guerras santas, batalhas diabólicas

O quanto você aposta em mãos postas? Soldados de todas as nações e religiões se benzem antes de puxar gatilhos, detonar granadas, jogar bombas. …

O quanto você aposta em mãos postas? Soldados de todas as nações e religiões se benzem antes de puxar gatilhos, detonar granadas, jogar bombas. As vítimas são sempre ungidas com sangue.

Se ajoelhar diante de Deus – com qual nome tenha – ou obrigar o inimigo a ajoelhar-se antes do tiro de misericórdia (que nem tem nenhuma) é a única comunhão ecumênica possível – a genuflexão mais pia ou impiedosa, depende apenas de que lado a força divina esteja.

Em quaisquer línguas e dialetos, preces e pragas soam de ambos lados das fronteiras. As primeiras suplicam todo o bem do mundo sobre si, as segundas todo o mal sobre o outro. Quer dizer, desfardados e desarmados também lutam.

Nesse combate de saliva e fé, eles têm certeza de que Deus, além de ter a mais alta patente em suas trincheiras e de ser o seu maior estrategista no front, Ele ainda permanece guarnecendo os civis na retaguarda. Uma onipresença que acompanha os fervorosos até o fundo do mais fundo abrigo.

Crenças matam. Religiosas ou ideológicas, causam mais morticínios que qualquer arma. Por elas se empunham os mais terríveis artefatos e por elas se aperfeiçoou a balística, que “progrediu!” da mira individual ao míssil transcontinental. Por elas se comandam e se deixam comandar os homens.

Como refletiu José Saramago a respeito da fraqueza espiritual humana, “se há Deus, só pode haver um.” Todo belicismo desampara e o desamparo maior é o de que o nosso Deus possa não ser tão bom militar diante do beligerante Deus lá deles. Ou de que todo o poder do Todo-Poderoso possa estar no arsenal alheio.

Todo crente, de qualquer tipo, de qualquer etnia, é um uniformizado da fé. Os fanáticos têm dragonas na alma. Formam tropas e batalhões cujas igrejas nada mais são que quartéis. Nelas, de sentinela, o medo. Nelas, como oficiais, os pregadores. Nelas, como ordens, as orações.

Aí, na tática da sua dominante liturgia, um papa dispara palavras de grosso calibre viradas pra Meca. Essa é a mais antiga ameaça à humanidade: a de que alguém acredite que a sua fé é a maior ou a melhor do mundo, a única a merecer atenção celestial. Aí fudeu.

Por isso descreio e não rezo. Apenas prezo a imponderável paz.

Se

Se a gula é pecado, a macrobiótica é a penitência.

Se recordar é viver, a amnésia é apodrecer.

Se a verdade dói, a mentira anestesia.

Se o trabalho é nobre, o desemprego é plebeu.

Se gastar faz bem, poupar faz bens.

Se o preconceito é fundo, o convívio é raso.

Se rir é o melhor remédio, o humor é a farmácia.

Etc.

Cárcamo –
o senhor das tintas.

Gonzalo Cárcamo é um pintor chileno, globetrotter que, trota, trota, há 30 anos vive entre nós, brasileiros, atualmente em São Paulo. Dizer que é um artista de mão cheia é reduzir a sua capacidade de adestrar a cor: ele faz o que quer com óleo, manda e desmanda no guache e até a indomável aquarela se derrama toda por ele. É com essa impressionante maestria técnica que Cárcamo regala o olhar que recai sobre a sua profusa seleção de caricaturas, ilustrações e pinturas originais expostas agora no Museu do Trabalho, ali perto do Gasômetro. As caricaturas de Cárcamo elevam o gênero – os caricaturados é que parecem se ajustar à sua agudeza de registro, às vezes percebida como feroz delicadeza. E as suas ilustrações se espraiam por tantas áreas – editoriais de jornais e revistas, capas e miolos de livros (alheios e seus) – que a impressão que dá é que seus pincéis nunca chegam a secar. Imaginação arejada, traço admirável, manchas belíssimas, sempre harmoniosa ocupação do papel, todo o trabalho do Cárcamo é fruto de peculiar perícia: espécie de homenagem dele às paisagens, às histórias e aos perfis que o atraem. Essa rara acuidade visual, aliás, se vê ao vivo, olhando no olho do Cárcamo; seu senso profissional e sua própria natureza pessoal não diferem – um respeitável homem diante do seu tempo e adiante de nós na compreensão das belezas e mazelas universais. Imperdível, só até 8 de outubro. Ou a qualquer momento, no bonito site do autor.

Lucas Levitan –
o instalador provocador

O Lucas (plural mais que apropriado) Levitan funciona tipo 3 em 1: é artista plástico, gráfico e designer (devo estar omitindo outras manifestações criativas do talentoso guri). Depois de expor em Londres chapas impressas a partir dos resíduos do rio Tâmisa (devo estar simplificando a técnica empregada), Lucas causa outras impressões, agora em Porto Alegre. É dele a instalação “Em Obras”, no Torreão da Venâncio com Santa Terezinha. Intrigante (devo estar minimizando o efeito): você entra, sobe, sobe, sobe, até chegar no alto. Aí você tem que trepar e se empoleirar lá em riba para descobrir os vários sentidos de “Em Obras”. Para Lucas, tudo (devo estar resumindo!) está em obras: a realidade, os conceitos de urbanidade, os códigos da arte, a política cultural do país, os corpos testados na escalada da obra dele. São impressivas sensações que se articulam (devo estar trocadilhando, física e visualmente) enquanto se desce. Lucas é um artista que provoca admiração ao propor, ao fazer, ao falar. São provocações familiares: o pai é o cartunista e músico e arquiteto Cláudio Levitan, a mãe é a fotógrafa Eneida Serrano e a irmã é a baterista Carina Levitan (devo estar incensando o DNA). A instalação permanece até 8 de outubro, quando, às 19h, o Lucas Levitan vai falar sobre ela, em cima dela. Instale-se por lá você também, se a sua concepção de arte estiver aberta para reformas.

Primeiro
poeminha
primaveril

Raiva em si bemol
resmungos com mel
ressentimento cordial
rancores ao sol
rabugices em anil
rugido pré-natal!

Autor

Fraga

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