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Da série Viver É

Viver é suprir carências. Ar, água, proteínas. Pronto. O básico do básico.Peraí, Fraga. Assim não dá pra viver legal. Tá bom. Ar, água, proteínas, …

Viver é suprir carências. Ar, água, proteínas. Pronto. O básico do básico.
Peraí, Fraga. Assim não dá pra viver legal. Tá bom. Ar, água, proteínas, sono.
Mas, e o clima, Fraga? Lá vai: ar, água, proteínas, sono, agasalho, um teto.

Não esqueceu nada, Fraga? Ah! Ar, água, proteínas, sono, agasalho, teto, companhia. E?! Bem, não custa tentar: ar, água, proteínas, sono, agasalho, teto, companhia e sexo. Ei, ei: assim, friamente? Que que foi agora, você é um insensível, Fraga?

Está bem – ar, água, proteínas, sono, agasalho, teto, companhia, sexo e envolvimento. Chega. O básico de um ampliado até o básico de outro.

Das cavernas até agora – não sei a que horas o leitor está lendo isso –
o básico virão um basicão desmedido. Do homo erectus ao homo escarrapachadus, a evolução nada mais é que o atendimento do básico levado às mais supérfluas conseqüências. Um delivery do egocentrismo com um nunca antevisto nourrau consumista.

E dá pra viver sem o com-isso, o com-aquilo, o com-não-sei-quê-mais, Fraga? Exprica aí, cara, antes que alguém se desconsuma deste texto.

Bão, o básico do básico bem básico pode e deve ser questionado. Em nome da igualdade do direito à vida sobre a face da terra. Um mínimo tem que ser garantido a cada um dos sem garantias de nada. Pra injustiça social não aumentar o número e o tamanho dos cemitérios.

Pero, o básico do básico pode ser olhado com ironia, que é a defesa do
ponto-de-vista inconformado com o que se vê. Então, vamulá, revisar o rol das necessidades primordiais:

Viver sem amor é possível. A maioria dos casados vive.

Viver sem sexo? Eunucos de corpo e de mente, castratis de voz e de alma, religiosos convictos, moralistas e testemunhas de sei lá que deuses, assexuados de natureza e de família, insossos e inodoros da libido, prostitutas profissionais (aquilo não é sexo), amadores inábeis, et coétera.

Viver sem companhia. Tom Zé já me deu o argumento, em São Paulo, Mon Amour, no verso que define a metrópole que agiganta abismos em calçadas cheias: aglomerada solidão.

Viver sem teto. Ora, marquises e viadutos habitados por pernoites e perdias – opa, Fraga, habitar não é um verbo adequado pro exemplo dado – comprovam. E as possibilidades de longevidade são imensas. Ou alguém aí acha que os sem-teto estão, pelo mundo afora, em sua primeira geração?

Viver sem agasalho. Vide sem teto.

Viver sem sono. Sono mal-dormido, convenhamos, não é reconfortador. Sono abaixo de soníferos, também não é pleno. Sono entrecortado por vigílias, sonambulismo, pesadelos, ronco ao lado, nada disso merece a classificação em berço esplêndido. Sem falar nas sub-condições para dormir, como catres, colchonetes de enrolar, caixas de papelão (um luxo para quem se cobre com jornais). Enfim, o sono é vital mas nem sempre promove a vitalidade.

Viver sem proteínas. Faquires fora, remember biafras e bangladeshes, etiópias e nordestes. Recordem catadores de lixo, comedores de ratos. Ou tudo isso é vida?

Viver sem água. Dá pra ir levando. Olhem nos bares.

Viver sem ar. Ataques de asma, mergulho em apnéia, sufocos emocionais, ditaduras. E não venham me dizer que dura pouco: pra quem experimenta limites, cada instante é eternidade.

Para viver, o básico, básico mesmo, é nascer e morrer. No intervalo, baseiem-se no essencial: divirtam-se mais e queixem-se menos.

Pra pensar

Sinceridade não é torneira de elogio.

Educação não é biombo pra burrice.

Franqueza não é lixa de vocabulário.

Lógica não é trampolim de sofisma.

Etiqueta não é maquilagem para idéias.

Eloqüência não é fábrica de argumentos.

Raciocínio não é tira-manchas da mentira.

Etc.

Poeminha
no pano verde

Descartes etc caterva
estudavam com afinco
todas as vantagens
de um baralho pra cinco.
Descartes pede à Minerva
uma trinca ou seqüência,
coringa as cartas, devagar,
é pif em nome da ciência.
Descartes não se enerva
e abre um jogo sem tamanho,
com o enunciado vitorioso:
– Descarto, logo ganho!

A pedido

No meu enterro, não enviem flores.
Na minha prisão, não enviem cigarros.
Nos meus erros, não enviem conselhos.
Na minha solidão, não enviem enviados.
Na minha doença, não enviem bolachas.
Na minha velhice, não enviem geriatras.
Na minha posteridade, não enviem homenagens.

Autor

Fraga

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