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A carga da charge

Como se mede a potência destrutiva da opinião – escrita ou desenhada – de um humorista? Quantos gumes ou megatons tem uma charge? Qual …

Como se mede a potência destrutiva da opinião – escrita ou desenhada – de um humorista? Quantos gumes ou megatons tem uma charge? Qual o calibre de um aforismo? Quão afiado pode ser um chiste e quão profunda é a sua incisão? Quantas ogivas carrega um deboche? Quão letal pode ser um cartum? Qual o alcance terra-mar-e-ar de uma piada? Quanta ferocidade contém um texto ferino? Quais as armas químicas e tóxicas num argumento venenoso?

Enfim: quão mortal é o arsenal de imagens e palavras de chargistas, cartunistas, quadrinistas, cronistas de humor, palhaços do traço, cômicos das tintas, comediantes dos balões, clowns das legendas, bobos da corte da mídia, esse exército em exercício por liberdades em trincheiras impressas e eletrônicas?

Toda opinião humorística – a bem pensada ou até mesmo a mal proferida – pode (e deve!) contrariar, desagradar, incomodar, provocar, intrigar, instigar. Se chegar a doer e ofender, são dois sinais: ou de exagero na contundência ou de excesso na suscetibilidade. Com ambos dá pra conviver, seguir a lida crítica adiante e a vida criticada em frente. Com tanques e mísseis, não dá. Muito melhor derramar rios de nanquim que de sangue.

Os mapas geopolíticos não são feitos com aquarela, nem suas fronteiras em pastel oleoso, embora não falte oleosidade na questão. Nesses cenários de mal-disfarçados interesses, esses mapas são manchados e rasgados em nome de causas para perpetuar antigos beneficiários ou os sucessores da ambição local.

Quando um chargista ou cartunista opina sobre tais barris de pólvora, por maior que seja seu extremismo numa folha de jornal ou página de revista, os piores danos não incluem o que ocorre quando os verdadeiros extremistas opinam à sua maneira sobre a diversidade política. Quando um desenhista desenha não surgem corpos dilacerados, destruição de cidades, invasões territoriais. Se atingidas, as vítimas da mais fina ironia verbal ou da sutileza gráfica são sempre, e apenas, as imagens dos poderosos. Que se mantêm de pé apesar do incessante e certeiro bombardeio de caricaturas. Não superestimem soldados de penas ao ombro.

Quanto ao uso da religião para calar artistas, é um pretexto tão ou mais perigoso
que qualquer arsenal real. É o estopim que detona a maior das bombas que a
humanidade já criou, o fanatismo. Contra ele, qual a defesa? Contra ele, melhor contra-atacar com o riso. Só pra tentar interferir no meio. E a interferência mais oportuna, agora, é: fé para lá, arte para cá. Subordinar a arte (e a liberdade de
expressão) a quaisquer deuses tem sido a artimanha de todos os obscurantistas.

E convém lembrar, não como defesa dos chargistas mas como a característica fundamental do seu trabalho, como bem cita o meu amigo Solda, cartunista paranaense: NÃO EXISTE CHARGE A FAVOR.

Imagens.

Tão bom ator que nem parece artista de telenovela.

Tão religioso que nem parece cristão.

Tão contente com o salário que nem parece professor.

Tão escrupuloso que nem parece advogado.

Tão recatada que nem parece adolescente de agora.

Tão educado que nem parece policial.

Tão criativo que nem parece redator publicitário.

Tão elegante que nem parece da alta sociedade.

Tão sem ambição que nem parece futuro candidato político.

Tão bem informado que nem parece jornalista.

Tão atrás das grades que nem parece traficante.

Tão atencioso que nem parece médico de plantão.

Tão apaixonados um pelo outro que nem parecem casados.

Tão contra a exploração que nem parece patrão.

Tão respeitado pela Fazenda que nem parece sonegador.

Tão despachado que nem parece funcionário público.

Tão engraçado que nem parece humorista profissional.

Etc.

(Com agradecimentos ao Saul Jr.)

Luiz César Cozatti (1950-2006)
 

Do seus 55 anos de vida, amou o cinema por uns 50. Claro que viveu e fez muito mais do que assistir e escrever (muito bem) sobre filmes. Mas foi através do que se passava nas telas que conheceu a todos nós, seus amigos, e se fez conhecer como a pessoa sensível, civilizada e culta que era. Um companheirão das salas escuras, excelente ser humano à luz do sol. O Cozatti é outra perda, a essa altura de tantas perdas, que comprova que a vida faz enredos que o próprio cinema não se atreve. E a melhor homenagem que poderia ser feita a um crítico (ou cronista) de cinema que se vai é a que não está sendo feita na cidade: com exceção do brilho de Hélio Nascimento, no Jornal do Comércio, a imprensa gaúcha só publica reles resenhas de filmes. Em memória do Cozatti, melhor ir ver um filme que dá o que pensar, como Tartarugas Podem Voar. Ele iria aplaudir entusiasmado.

Autor

Fraga

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