Amy Webb encerra Tech Trends Report no SXSW após quase duas décadas

Futurista anunciou o fim de um dos relatórios mais influentes do setor de tecnologia e propôs nova metodologia baseada em convergências

Uma das apresentações mais aguardadas do SXSW todos os anos costuma envolver longas filas e auditórios lotados. O motivo é a futurista Amy Webb, CEO da Future Today Strategy Group e professora de Strategic Foresight da NYU Stern School of Business, responsável por um dos relatórios mais influentes sobre tecnologia e futuro dos negócios. No último sábado, 14, durante a tradicional apresentação no SXSW, a futurista surpreendeu o público ao anunciar o fim do relatório.

Desde 2008, Webb publica anualmente o Tech Trends Report, estudo que se consolidou como uma referência global para executivos, conselhos de administração, investidores e líderes de tecnologia interessados em antecipar mudanças estruturais nos mercados. Ao longo dos anos, o documento cresceu em escopo e profundidade, chegando a ultrapassar mil páginas e centenas de sinais de transformação tecnológica analisados.

Um “velório” simbólico para o relatório

Quem entrou na sala do evento encontrou um ambiente inesperado. Velas, coroas de flores e música instrumental criavam a atmosfera de um velório. Lenços de papel foram distribuídos aos participantes antes mesmo do início da apresentação.

A encenação marcava a despedida do relatório que Webb apresentou por quase duas décadas no festival. No palco, a futurista explicou que o formato tradicional de relatórios de tendências deixou de acompanhar a velocidade das transformações tecnológicas e econômicas.

Segundo ela, documentos estáticos não conseguem mais refletir a dinâmica de um mundo em que tecnologia, economia e política evoluem em ritmo cada vez mais acelerado.

O contexto: uma era de destruição criativa

Para explicar a mudança, Webb recorreu ao conceito de destruição criativa, formulado pelo economista Joseph Schumpeter na década de 1940. A ideia descreve o capitalismo como um processo contínuo em que novas tecnologias, produtos e modelos de negócio substituem estruturas antigas.

“Destruição criativa significa a criação de novos produtos, tecnologias, modelos de negócio, mercados e organizações, ao mesmo tempo em que destrói empresas estabelecidas, empregos antigos e formas obsoletas de produzir e vender”, explicou.

Segundo a futurista, esse processo está acontecendo hoje em escala global, impulsionado por avanços simultâneos em inteligência artificial, biotecnologia, sensores e automação. Nesse contexto, olhar para tendências isoladas já não é suficiente para orientar decisões estratégicas.

Das tendências às convergências

A proposta apresentada por Webb no SXSW é substituir a lógica tradicional de tendências por uma análise baseada em convergências. Enquanto as primeiras apontam mudanças específicas, as segundas analisam quando diferentes transformações passam a se combinar e gerar impactos estruturais em múltiplos setores.

“Quando você identifica uma convergência, você a usa para estratégia. Para decidir o que acelerar, o que pausar ou o que precisa ser completamente reformulado”, afirmou.

Essa nova abordagem passa a orientar um novo documento desenvolvido pela Future Today Strategy Group chamado Convergence Outlook, que substitui o tradicional relatório de tendências.

Três convergências que começam a moldar o futuro

Durante a apresentação, Webb destacou algumas das convergências que já começam a impactar empresas e mercados. A primeira é o ‘human augmentation’, conceito que descreve o uso de tecnologia e biologia para ampliar capacidades físicas e cognitivas humanas além de seus limites naturais.

Outra convergência é o ‘unlimited labor’, cenário em que produção em escala passa a ocorrer com pouca ou nenhuma participação humana, resultado da combinação entre agentes de inteligência artificial, robótica avançada e automação industrial.

A terceira convergência envolve um fenômeno cultural que ela chamou de ‘emotional outsourcing’, ou terceirização emocional. Nesse cenário, pessoas passam a recorrer a sistemas de inteligência artificial para companhia, aconselhamento e apoio emocional.

“A terceirização emocional é a transferência do conforto, da validação e da companhia das pessoas para as máquinas”, explicou. Segundo Webb, esse movimento já está criando um mercado multibilionário baseado em plataformas projetadas para substituir ou mediar relações humanas.

Um novo momento para a análise do futuro

Ao encerrar o relatório que apresentou por quase duas décadas no SXSW, Webb defendeu que os executivos precisam abandonar a busca por listas de tendências e passar a trabalhar com cenários mais complexos e interconectados.

Para ela, o desafio agora não é apenas identificar mudanças, mas entender como diferentes transformações passam a se combinar e gerar novas realidades econômicas e sociais.


Confira aqui um resumo em vídeo com os principais pontos da fala de Amy Webb. Para receber novo relatório, interaja na publicação.


O Coletiva.net está mais uma vez em Austin, nos Estados Unidos, para realizar a cobertura do South by Southwest (SXSW), dessa vez com a parceria da Global AD. O CEO e sócio da agência Vinícius Ghise escreve acompanhará os principais painéis, lançamentos e experiências do evento, trazendo análises sobre tendências, estratégias de Marketing e novos modelos de negócios discutidos no evento. Além das reportagens publicadas no portal, também haverá presença nas redes sociais do portal e da Global AD, com conteúdos em tempo real, bastidores, vídeos e insights in loco.

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