O Núcleo de Jornalismo Histórico da Coojornal não tem uma data definida de sua criação, mas certamente surgiu embalado por aquele tipo de jornalismo memorialista que o Coojornal abriu e incentivou. Como registrei aqui, era uma iniciativa ousada e criativa, na medida em que servia para, de alguma forma mais ou menos explícita, driblar aqueles assuntos ou temas que desagradariam os detentores de poder na época.
Em seu livro ‘Jornalistas e Revolucionários’, em que registra a história da imprensa alternativa nos anos 70 e 80 do século XX, Bernardo Kucinski menciona assim a importância do Coojornal neste cenário: “O regime autoritário poderá durar mais alguns anos, a abertura política poderá sofrer demoras, mas era evidente para todos que o regime militar começava a entrar para a história. E o Coojornal se tornou o contador desta história. Como método narrativo, adotavam a reportagem histórica, fundamentada em documentos e depoimentos dos protagonistas ainda vivos. Tornou-se um jornal ‘memorialista’, referenciado no plano do jogo político, não do ideológico, muito menos do psicológico ou do cultural”.
Rafael Guimaraens, um jovem recém-chegado e que atuava no arquivo da Cooperativa dos Jornalistas de Porto Alegre, participou desde o início do grupo que se reuniu para estudar eventos da história. Ele lembra que entre os frequentadores mais assíduos das reuniões pontuavam Marcelo Lopes, Tânia Faillace, Caco Schmitt, Marco Antônio Schuster, Najar Tubino e André Pereira. E entre os convidados mais frequentes figuravam os historiadores Décio Freitas e Mario Maestri. Daqueles encontros de jovens ávidos por saber com profissionais que tinham rios a contar, muitas sugestões de pautas nasciam e frutificavam.
O grupo se reunia à noite em alguma sala da sede na Comendador Coruja, e, fosse inverno ou verão, mais de uma cuia de chimarrão corria de mão em mão entre seus integrantes. Uma destas pautas foi sobre a Greve de 1917, escrita por Tânia e Marcelo e com o envolvimento de alguns colegas que se dedicaram à pesquisa. “Seguia aquela lógica do jornal”, relembrou Rafael. “Se não podíamos falar de temas do presente, como as greves do ABC, falávamos de greves antigas. Tenho certeza de que o núcleo influenciaria o trabalho futuro de alguns de nós, e cito especificamente o meu caso e o do Caco Schmitt, além do próprio Elmar, que tem uma ênfase muito grande na construção da memória.”
Em seu caso muito particular, Rafael tornou-se um romancista e historiador dedicado a resgatar momentos importantes especialmente da história de Porto Alegre. Seus livros podem ser consultados junto à Editora Libretos e merecem receber a atenção de sua leitura.
O caminho encontrado pelo jornal foi trabalhar a história como material jornalístico. Se não se podia falar sobre torturas, apresentava-se uma reportagem sobre o período da Inquisição. Se não se podia lembrar ditaduras e ditadores, recorria-se ao perfil de Júlio de Castilhos, o pai deles. A anistia, palavra cancerosa para o regime, era abordada em trabalhos que resgatavam anistias anteriores. Este foi um veio que, graças à abordagem sempre criteriosa e isenta de comprometimentos ideológicos, contribuiu para fortalecer o prestígio do Coojornal e atrair colaborações espontâneas de historiadores como Décio Freitas e Hélio Silva.
“O Coojornal chama a atenção pelo projeto gráfico moderno de Jorge Polydoro, a qualidade do texto, a profundidade das reportagens e a pauta um tanto atrevida para o provincianismo reinante”, escrevem os autores – Rafael, Elmar e Ayrton Centeno – de ‘Um jornal de jornalistas sob o regime militar’. E adiante recordam: “Assuntos-tabu, como o Caso Kliemann, a prática da degola nas revoluções regionais e o assassinato do sargento Manoel Raimundo Soares são resgatados do essquecimento em reportagens históricas.”
Algumas destas reportagens merecem destaque especial. Basta aguardar.

Memória Coojornal: o que a história diz de um ditador


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