Colunas

Férias na Porto Alegre da propaganda

Por Márcia Martins

A indecisão é uma das características mais marcantes dos nascidos sob o signo de Gêmeos (21 de maio a 20 de junho). Como alguns que me acompanham sabem, eu sou totalmente geminiana. Dos pés à cabeça. Da gema. Sem a mínima chance de negar ou disfarçar. E, para piorar, tenho ainda o ascendente e tudo mais que possa ser imaginado na casa de Gêmeos. Logo, sou declaradamente indecisa. Fato que termina atrasando invariavelmente as minhas escolhas, projetos, resoluções, determinações e todo o tipo de atitude a ser tomada. Ou elas ocorrem depois de muito analisar os fatores positivos e negativos, ou após pedir conselhos aos familiares e amigas mais próximas ou quando esgotei o meu deadline.

Por conta desta dificuldade em decidir, estava sem nenhuma ideia de onde passar as férias de janeiro e/ou fevereiro. Antes de tudo, é necessário dizer que sou aposentada e o tal período de férias oficial é mera formalidade, uma vez que elas podem acontecer em qualquer mês. Basta ter dinheiro para destinos mais longos e onerosos. Mas costumo sair uns dias nos primeiros dois meses do ano. Por vezes, aceitando o convite da minha irmã, que me levou para a Bahia no ano passado, ou combinando Carnaval ou feriado em alguma praia gaúcha com irmão e irmã. Pois não tinha, até o final de dezembro, um local definido para relaxar, esticar as pernas, sossegar a mente. Sem um destino escolhido para as tais férias de Verão.

Eis que ao ver em várias emissoras de televisão em horário nobre a publicidade da Prefeitura de Porto Alegre, mostrando as maravilhas da cidade (uma falando sobre o investimento do dinheiro arrecadado com o IPTU e outra institucional), decidi, sem pestanejar e risco de voltar atrás. Quero passar as férias, alguns dias que sejam, em janeiro ou fevereiro, na Porto Alegre da propaganda. Preciso conhecer aquelas ruas com iluminação, infraestrutura perfeita e sem lixo acumulado. Quero caminhar pelos parques e praças com os equipamentos de diversão inteiros, os bancos conservados, a grama aparada e sem o risco de cair alguma árvore no momento do lazer. É na cidade linda, agradável, encantadora e paradisíaca da publicidade apresentada que quero ir.

Deve ser uma Porto Alegre nova que pegou emprestado o nome da Porto Alegre que conheço e onde vivo, a capital do Rio Grande do Sul. Preciso descobrir urgentemente onde fica para comprar a passagem. Já liguei para a Estação Rodoviária e lá ninguém sabe informar qual o ônibus que leva a tal Porto Alegre. Vai ver ela é tão escondida, mas tão escondida, que só seja possível chegar nela usando um meio de transporte ainda não inventado, ou de foguete, ou viajando a bordo de um superfantástico balão mágico, porque nele o mundo fica bem mais divertido. Se alguém souber como se chega na Porto Alegre da publicidade do prefeito Nelson Marchezan Junior, por favor, me informe logo. É capaz que as passagens se esgotem.

Na Porto Alegre da realidade, não existe nenhuma política pública para os moradores de rua, que proliferam e dormem espalhados em todos os cantos em plena luz do dia. Na Porto Alegre da realidade, os ônibus não obedecem à grade de horários, são sujos e alguns parecem a sucursal do inferno de tão quentes. Na tarde de terça-feira, fiquei uns 25 minutos esperando o ônibus Menino Deus na Rua Lima e Silva, bem na frente da Secretaria Municipal de Serviços Urbanos (SMSURB). Mais tarde, na Porto Alegre real, ao entrar no ônibus C3, da Carris, a sensação era de que todos os passageiros iriam morrer tamanho o calor no interior do veículo que transita, fora da propaganda, sem ar condicionado.

Na sexta-feira, parte do bairro Cidade Baixa ficou sem luz durante umas duas/três horas. É que na Porto Alegre da realidade, a Prefeitura não se preocupa com as praças, sua conservação, limpeza, meio ambiente e demais detalhes. E uma árvore simplesmente caiu, atingindo fios da energia elétrica na Praça Garibaldi e por pouco não causou danos maiores, uma vez que no local é intensa a passagem de crianças e animais de estimação. Na Porto Alegre da realidade, os vizinhos de um bairro estão programando um mutirão de limpeza perto de um ginásio de esportes do município, porque a Prefeitura ignora que é necessário, uma vez por mês, quem sabe, proceder um recolhimento de lixo.

Então, para conhecer a Porto Alegre que a equipe do prefeito Marchezan diz existir, já está decidido. Vou aproveitar uns dias de férias e desfrutar das belezas, do conforto, da segurança, do transporte coletivo limpo, com ar condicionado e em horários certos, das praças e parques, da Orla do Gasômetro com policiamento que apareceu na propaganda oficial da Prefeitura. Assim que descobrir como se chega lá.

Autor

Márcia Martins

Márcia Fernanda Peçanha Martins é jornalista, formada pela Escola de Comunicação, Artes e Design (Famecos) da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), militante de movimentos sociais e feminista. Trabalhou no Jornal do Comércio, onde iniciou sua carreira profissional, e teve passagens por Zero Hora, Correio do Povo, na reportagem das editorias de Economia e Geral, e em assessorias de Comunicação Social empresariais e governamentais. Escritora, com poesias publicadas em diversas antologias, ex-diretora do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Rio Grande do Sul (Sindjors) e presidenta do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher de Porto Alegre (COMDIM/POA) na gestão 2019/2021. E-mail para contato: [email protected]
Compartilhar:

*As discussões estão sujeitas à moderação. Antes de comentar, leia nossa Política Editorial

ÚLTIMAS NOTÍCIAS

Relacionados

CADASTRE-SE
Captcha obrigatório
Seu e-mail foi cadastrado com sucesso!

Aviso: se você optou por parar de receber nossos e-mails e deseja voltar à nossa lista, ou está com dificuldades para se cadastrar, entre em contato com a Redação pelo formulário Fale Conosco e informe seu nome e o e-mail que deseja incluir.