Numa semana em que não abri um jornal sem que visse alguém chamando Millôr Fernandes de gênio, me lembrei de um texto que escrevi pra Zero Hora faz quase duas décadas, mas que nunca foi publicado. Resolvi ressuscitá-lo não pra puxar briga e sim pra lembrar aos louvaminheiros de plantão que mesmo os gênios têm seus momentos de três patetas como todos nós, atitude que, suponho, Millôr elogiaria, sendo o iconoclasta que foi. Sei, sei, os iconoclastas também são vaidosos. E em matéria de vaidade o Millôr estava na linha de frente.
Outra coisa: eu gosto muito do frasista Millôr e do desenhista Millôr. Mas do teatrólogo, sei não. Tenho vários livros com as peças dele e nenhum me deixou alto, no sentido alcoólico do termo. As introduções explicativas me pareceram muito melhores que as peças. É mais ou menos o caso dos filmes e dos cineastas brasileiros, caso imortalizado num cartum pelo Jaguar, um modelo de falta de seriedade que devia ser seguido, mas que não é devido à falta de colhões. Voltemos ao cartum: dois caras saindo do cinema, um deles dizendo:
– O filme é uma merda, mas o diretor é genial.
Posso estar completamente enganado. Não seria a primeira nem será a última vez. Também não será a primeira nem a última vez que mudo de opinião em caso de me mostrarem direitinho meu erro.
PS: Falando em erro, eu sempre quis escrever a palavra louvaminheiro. Eu jurava que me sentiria usando polainas. Mas, que droga, me senti apenas com o fardão e o espadim.
Haverá motivos, digamos, psicanalíticos para Millôr Fernandes considerar a psicanálise uma mentira total? Não sei, mas as declarações dele, na revista Oitenta, no 5 (L&PM), são no mínimo suspeitas e revelam muito mais Millôr Fernandes do que as fraquezas da psicanálise, me parece. Depois, há o que realmente interessa, a obra de Millôr — obra com pistas que aumentam as suspeitas.
Talvez ele nem assine mais o que disse à Oitenta, afinal faz um bocado de tempo. Em todo caso, merece atenção a coincidência do pensamento com a obra até essa data. Sabe-se que nem sempre as opiniões de um escritor batem certinho com os livros dele. Ou quase nunca.
Não me preocupa que Millôr esteja enganado. Isso acontece com todos nós, um dia ou outro. Me preocupa a veemência da frase dele. Quando um dos entrevistadores cita Hemingway — “Uma infância infeliz é absolutamente essencial pra forjar um escritor” —, Millôr é outro: “Eu não faria uma frase tão peremptória. Eu acho que tudo faz tudo”. É isso: por que Millôr, que gosta de repetir que tudo tem dois lados, menos a avenida Atlântica, diz que a psicanálise tem um só?
A psicanálise é uma mentira total porque “está fuçando coisas que não fazem parte da personalidade evidente, funcional, imediata, e existencial da pessoa”. Se, como afirma Millôr, tudo faz tudo, está na cara que a infância colabora para que a pessoa tenha a personalidade que tem. Se tudo faz tudo, o passado influi nos gestos presentes. Então pode se discutir o grau de influência, não a influência, confere?
Agora, é possível ter plena consciência desse passado? A gente lembra o que quer ou pode e como quer ou pode. Basta comparar três versões de um fato. Pior: muitas pessoas continuam agarradas às versões delas mesmo depois de confrontadas com provas materiais.
Millôr insiste, mas na verdade não há novos argumentos, apenas variações desse primeiro. Por exemplo, a psicanálise é “uma proposta pelo avesso. O homem é uma máquina de enrustir, o homem foi feito para enrustir as coisas”. Tudo bem, mas isso não quer dizer que o que enrustiu não afeta o seu comportamento, nem que ele tenha pleno conhecimento de tudo o que enrustiu, nem, claro, que o enrustimento faça bem sempre.
“Você leva uma porrada quando tinha 10 anos”, diz Millôr. “Essa porrada você enruste. Você absorve as humilhações, ostenta as coisas positivas. (…) de repente passa um cara e, tum! te lembra, sem você querer, a humilhação de 10 anos e te volta aquela dor dum certo momento. Mas passa logo.” Otimista, não? O diabo é que a pessoa pode nem lembrar nunca dessa porrada e ela pesar nos seus atos pela vida afora. Depois, todas as pessoas absorvem todas as humilhações sempre? Quanto a ostentar as coisas positivas, não quer dizer que assim se anulem as negativas, nem que se convença a maioria do eleitorado, sem falar que qualquer um de nós conhece no mínimo meia dúzia de pessoas que fazem questão, uma hora ou outra, de ostentar o pior. O exemplo de Millôr reduz a pessoa a preto e branco, com grande predomínio do branco. Por quê? Afinal Millôr não é um homem inteligente, capaz de falar meia hora sobre a complexidade de uma frasezinha como “Livre como um táxi”?
Para ilustrar o quadro ele faz a seguinte comparação: você tem uma caixa de água com a borra sedimentada no fundo. Uma vez por ano vem um sujeito limpar e a água se turva por algumas horas. “Agora, você pagar um sujeito para ficar com um pauzinho na tua alma, o tempo todo remexendo com os troços (…)”. A comparação me parece viciada: Millôr nega que a borra se misture com a água fora de situações especiais. É óbvio que não é em todas as caixas ou almas que a borra estará sedimentada, como também é óbvio que as situações que podem turvar a água variam ao infinito de pessoa para pessoa, podem ser situações as mais cotidianas e atingir com intensidades variadas dependendo do dia, da hora, da lua, da estação ou digestão. Quem não leu na crônica policial que alguém matou por causa de uma banana, de um olhar atravessado?
Quanto a pagar um sujeito para remexer com um pauzinho na sua alma, depende. Se você não tem dinheiro, se você tem medo, ou se conhece razoavelmente a dita alma ou se convive razoavelmente com ela, pode deixar o sujeito e o pauzinho de lado. Mas, como nota um dos entrevistadores, o que faz a pessoa que anda com a água turvada o tempo todo? Aí Millôr diz que não é um radical, que se “um maluco quer consultar o psicanalista, seria eu a última das pessoas a recusar esse seu direito. Eu acho que se existe essa coisa e está fazendo bem a essa pessoa…” O grifo é dele. Só desejo apontar um detalhe: chamar o paciente de maluco e a psicanálise de coisa não é argumento, apenas uma estratégia de difamação: Millôr não nega o direito da pessoa, mas se é um maluco, não sabe o que faz; se é uma coisa, por que nos preocuparmos com ela?
Mas o entrevistador, na Oitenta, foi muito mais sutil (suspeito que seja o José Onofre): “Aí eu volto àquilo que o Herbert Read dizia: ‘O mal da nossa época é que ela não tem uma arte trágica’. Uma arte que te permita uma maneira de te livrar dos teus fantasmas socialmente. Teatro, por exemplo, que é uma coisa que você faz. Os gregos, por exemplo”. Sobre isso, Millôr cala. Nem pode propor o teatro dele como resposta, logo veremos.
Millôr reclama, de forma agressiva, que a “psicanálise não cura exatamente ninguém”. A psicanálise não é a oitava maravilha, até os psicanalistas sabem, e é preciso dizer que é um campo fértil para todo tipo de picareta — talvez só perca para a economia e as artes plásticas —, mas nada é a oitava maravilha, nem nada escapa dos picaretas. Agora, a medicina não cura o câncer, por exemplo, mas faz uma série de coisas para diminuir o sofrimento do paciente, até consegue que fique vivo por mais uns tempos. Nem por isso a gente se irrita com os médicos. Se a psicanálise, ao proporcionar que o paciente se conheça melhor, dá a ele um mínimo de equilíbrio, continua merecendo a crucificação? Depois, por que exigir cura se o sujeito pode “absorver as humilhações” sozinho, pode “ostentar as coisas positivas”? Por que exigir cura se a dor “passa logo”?
Deixei para o final uma coisa do começo. Millôr disse para Hélio Pellegrino: “Eu tive a sorte de não ter pai nem mãe”. Segundo ele, “a inexistência de uma família não me fez infeliz”. A perda do pai e da mãe não o fez infeliz? Isso sim foi uma sorte. Mas será sorte não ter pai nem mãe? Não é o mesmo que afirmar que todos os que têm pai e mãe são azarados?
Pelo que sei Millôr perdeu o pai aos dois e a mãe aos dez anos. Com a morte do pai, foi morar com a avó, com quem Millôr teve uma ligação muito forte. Quer dizer, Millôr teve família sim senhor. Se não teve da puberdade pra frente, é outra história. Da forma como falou, parece que saiu direto do berçário para a rua.
Millôr dá um exemplo de felicidade por não ter tido pai nem mãe: não pegou a repressão sexual da geração dele. Acha que a repressão da sociedade é bem mais branda do que a exercida pela família. Em seguida, Millôr passa a falar da sua esperteza precoce, do seu ceticismo. Como negativo na sua infância, lembra uma frustração: não anda de bicicleta.
Tudo muito bem, mas gostaria de saber como Millôr se virou com o vazio deixado pelo pai: o afeto, a solidão. Infelizmente ele prefere falar de repressão sexual, da sua desconfiança com o escotismo, da canalhice de Baden Powell. Apenas na bicicleta transparece algo: sem pai, Millôr teve de trabalhar cedo e não pôde ser uma criança por inteiro: brincar tudo o que tinha direito.
Interessante, quando se aproxima da borra no fundo da caixa, Millôr nos (ou se) distrai com tiradas engraçadas, com autoelogio, com demonstrações de cultura e nos (ou se) mantém na superfície da água. Certo, se não quer discutir a sério a infância em público, concordo, mas daí a dizer que foi uma maravilha não ter pai nem mãe… Isso seria uma sorte se o pai ou a mãe fossem do tipo que costuma jogar os filhos do oitavo andar. Mesmo assim, uma sorte pela metade. Quem não quer uma boa recepção ao chegar ao mundo?
No fim, um dos entrevistadores resolve botar Millôr na parede e pergunta o que o move, o que o leva a escrever, que tipo de obsessão? Millôr se ouriça na hora: “Não, mas peraí! Primeiro, não é obsessão, é profissão. Como outros ganham a vida no mercado financeiro, o português ganha a vida no seu armazém, eu estou ganhando a minha vida. (…) Eu estou procurando vender um produto. É aquela história que a gente já falou, a história do bom tijolo”.
Digamos que sim, que não há obsessão, que é profissão, que por um mero acaso Millôr escreve em vez de estar atrás do balcão de um armazém. Agora, dá para comparar o produto de um escritor, uma peça, por exemplo, com um tijolo? Por mais bem acabado que o tijolo seja, um tijolo será sempre um tijolo e não nos revelará do oleiro nada mais do que o seu zelo na hora de fazer tijolos. Uma peça é um pouquinho mais complexa. Por uma peça podemos ter algumas noções de quem é o autor, se é inteligente, engraçado, ou chato, quais são suas preocupações fundamentais. De um jeito ou outro, o autor está nos personagens. Quer dizer, na hora que Millôr quer que olhemos a sua literatura apenas como um produto que ele vende, algo estritamente profissional, não está tirando o corpo fora? Ou melhor, não está oferecendo a água cristalina da parte de cima da caixa, na esperança de que a gente não lembre de olhar o fundo?
Peguemos os tijolos feitos pelo Millôr. Quando se fala no Millôr, a maioria das pessoas diz: o gênio da frase. Mas uma frase, ou mesmo quinhentas, por mais memoráveis que sejam, não revelam muito do seu autor, não comprometem tanto como a criação de personagens. Nos personagens, uma hora ou outra, aparecem aquelas humilhações que o autor enrustiu. Num personagem não dá para ficar ostentando só as coisas positivas. Mas só fazendo frases, a gente pode ostentar o melhor de nós: a inteligência, o brilho, o humor. Um serviço limpo. Reflexões sem dor, digamos.
Quando sai da frase, da crônica, para o teatro, Millôr dá o quê? Samba? Lembro de uma matéria, um tanto irada, do Fausto Wolfe. Reclamava que as pessoas diziam que Millôr era apenas um escritor de frases. Mas Shakespeare, perguntava, também não era um escritor de frases? Fausto Wolfe esquece o óbvio: Macbeth, Hamlet, Lear, Júlio César e tantas outras figuras. Se fosse só um escritor de frases, Millôr era mil vezes melhor. De Shakespeare a gente lembra uma meia dúzia, coisa que Millôr despacha numa semana. Mas, em meio século, Millôr não criou nenhum personagem que tenha permanecido em nossa memória. Não associamos a Millôr nenhum nome como Madame Bovary a Flaubert, Julien Sorel a Stendhal, Raskolnikof a Dostoievski. Está muito internacional o jogo? Nelsinho a Dalton Trevisan, Mandrake a Rubem Fonseca. A Millôr não associamos nem nomes como Gabriela a Jorge Amado ou Ana Terra a Érico Veríssimo. Ou, ficando no terreno de Millôr, não associamos a ele ninguém como o Analista de Bagé a Luis Fernando Veríssimo e Edélsio Tavares a Ivan Lessa. Como disse o poeta e crítico Paulo Hecker Filho: a gente lê Millôr com o maior agrado, depois esquece.
Millôr nunca perde a chance de malhar a crítica que malha o teatro dele. Tudo bem, há montes de incompetentes passando por críticos. Mas Millôr chega ao ponto de dizer que Um Elefante no Caos é ignorado porque não é uma peça estrangeira nem ele faz parte da máfia que domina a imprensa. Senão ele seria objeto de teses e o diabo a quatro. Apenas ironia? Talvez. Afinal sabemos de dezenas de besteirol analisadas como se fosse Sófocles. O que continua sem explicação é que nem amigos como Paulo Francis defendem a candidatura de Millôr como o nosso grande teatrólogo. Em O Afeto que se Encerra, Francis distribui notas para todo mundo e a Millôr coube a de ter dado direção ao humor nacional. O resto é silêncio. Parece que há uma conspiração geral a favor do Nélson Rodrigues. A Millôr resta então se agarrar ao público: o público o compreende, o público o prestigia. É um consolo, mas não um argumento. A televisão é um sucesso de público muito maior e é considerada um lixo pelo próprio Millôr.
Millôr diz que a inexistência de uma família não o fez infeliz. “Portanto, sou hemingwaymente um mau escritor.” Não, não, a felicidade da infância dele não tem culpa nenhuma. Millôr é um escritor limitado porque sua literatura não remexe com um pauzinho o fundo da caixa. Não dá para ser escritor impunemente.

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