Nunca fui um grande ouvinte de rádio. Sempre selecionei o que eu ouvia. Meu sonho era escrever. Até hoje, acho que escrevo melhor que falo. Minha audiência sempre foi seletiva. Era mais ouvinte de jornadas esportivas e de rádios musicais. Minha emissora preferida era a Ipanema FM. Ouvia a Guaíba e a Gaúcha em jogos. Conhecia os narradores, comentaristas, repórteres e comunicadores do rádio esportivo e da Ipanema. Tinha identificação com a “rádio dos loucos”. Queria ser um louco. Eu já era um louco, só que sem microfone. Tive um programa na Ipanema entre 2009 e 2012, o Subpop. Foi o máximo. Mas não sou conhecido por isso. Sou um jornalista esportivo, o lugar onde há o maior número de pessoas com o DNA do rádio, orgânico, sonho de infância, aquela coisa do menino jogar botão e narrar as jogadas, de, na pelada da rua, cada menino interpretar um papel.
Ao contrário de vários colegas, o rádio surgiu por acaso, naquela ânsia do primeiro estágio, o convite feito e a trajetória iniciada, percorrida e até hoje vivida no meio. São 21 anos de profissão no rádio, sempre. Mas não tenho o rádio no meu DNA. Havia a turma que queria ser o Osmar Santos, o Armindo Antonio Ranzolin ou o Haroldo de Souza. Eu não queria ser nenhum deles. Nesse período, há mais de 30 anos, comecei a ler muito. Livros de romances policiais, com tramas complexas e enigmas insolúveis. Jornais diários, sempre. Minha família tinha assinatura da Zero Hora e do Correio do Povo e eu, ao contrário dos meus colegas, lia tudo. Começava pelo esporte. Devorava resenhas. Gostava dos suplementos especiais. Via muita televisão. E comecei a ler revistas. Placar, Mad, Playboy, Set, Bizz, Rock Brigade, Rolling Stone gringa. Tinha uma banca perto de casa, ali no Cristo Redentor, que vendia. Aprendi inglês assim. Minha revista preferida era a Bizz. Aquelas resenhas eram lindas. Então, meus primeiros heróis do jornalismo não foram aqueles que narravam as jogadas do Zico, do Sócrates e do Falcão. Meus heróis escreviam, não apareciam e lá estavam apresentando a mim um mundo completamente diferente que mudou minha vida.
Desta forma, sempre quis ser jornalista e me enxergava como um jornalista de meio impresso. O rádio aparece em 1999, quando, aprovado como estagiário da Rádio Gaúcha, comecei a trabalhar com rádio e com uma paixão que sempre foi o futebol. Não era exatamente um sonho a ser realizado, mas foi o caminho que eu vi na minha frente e que procurei percorrer. Embora desastradas investidas no mundo da música – além do Subpop, apresentei programa cultural, fui DJ, correspondente de revista, toquei (muito mal) numa banda e dei até toques de produção —, a minha carreira é o rádio. Entretanto, nunca me vi e ainda não me vejo como um homem de rádio. O homem de rádio é um ser com características próprias, bem definidas e elas passam longe daquilo que eu sou. Não se torna um homem de rádio. Essa definição é absolutamente natural, orgânica, inerente àquilo que a gente recebe como referências e vivências. Quando alguém manifesta vontade de trabalhar numa emissora, já se vê de cara se ele é ou não um homem de rádio. A gente sabe na voz, no gesto, no uso das palavras, no estilo de vida, no cotidiano. É difícil até de explicar como ele é. Ele simplesmente é. Como era o Marne Barcelos.
Não conhecia o Marne, que nos deixou na última quinta-feira. Sequer era seu ouvinte. Nunca ouvi rádio popular. Como destaquei, ouvia a Ipanema e jornada esportiva. Sabia quem era e sei de sua história. De sua importância. De como se tornou uma referência para o rádio popular, um rádio falado, conectado com o ouvinte, um companheiro mais próximo desse engessamento hard news que parece produzido em caixinha de laboratório, o rigor do boletim com lead, desenvolvimento e conclusão, dois minutos e meio no máximo, cabeça, sonora – os puristas vão me matar dizendo que “tudo no rádio é sonora”, mas é uma licença provocativa que uso aqui – e encerramento, a forma acima do conteúdo. Marne era como Paulo Josué, Sérgio Zambiasi, Gugu Streit, Sérgio Abraão, Sayão Lobato, Nelson Marconi e tantos outros: um verdadeiro, legítimo e brilhante homem de rádio. O rádio sem essa formalidade chata que o rádio inventou e passou a doutrinar os jovens acadêmicos do jornalismo atual. O rádio de verdade, popular, pop, de ouvinte, de audiência, de estabelecer uma conexão baseada em empatia que nenhum comunicador desse rádio chatinho tem. Um rádio que sofre todos os preconceitos dos jornalistas mais tradicionais, mas que sobrevive, aproveitando aquilo que nenhuma tecnologia é capaz de fornecer: companheirismo.
O homem de rádio morre um pouco com Marne Barcelos. Sobrevive a duras penas depois do impacto que o jornalismo teve sobre o meio e que as redes sociais, com seu deslumbramento de “venha ser um influencer você também”, com esse embuste que é o multimídia, em que um profissional se desdobra em duzentos meios sem fazer direito nenhum deles. O homem de rádio morre junto com o homem de jornal, junto com o homem de TV e junto com a renovação dos quadros que substitui apaixonados, devotos e pessoas que têm no rádio o seu DNA pelo fazer multimídia ou mais pela repercussão do que pela prática.
O homem de rádio está em extinção. Depois de tanto tempo, passei a invejar profundamente essa figura essencial para tanta gente e subestimados por uma maioria que adota a tecnocracia como lema e despreza as relações mais orgânicas e honestas da comunicação. O rádio vive por Marne Barcelos e por tantos outros. Só que até quando?
