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Riqueza de detalhes nos requintes de crueldade

Por Flávio Dutra

Dia desses, um experiente repórter radiofônico usou “requintes de crueldade” para descrever a ação de assassinos no Litoral Norte. “Requintes de crueldade”, há quanto tempo não ouvia essa expressão? Tanto quanto “riqueza de detalhes”, outra forma de valorizar um relato em seus pormenores e que tenho ouvido com frequência em AM e FM. Só que requinte e crueldade são palavras tão dissonantes entre si que, a rigor, não deveriam ser combinadas, diferente de riqueza e de detalhes que se harmonizam bem como vinho tinto e carnes vermelhas.

Requinte é sinônimo de sublime, nada a ver com atrocidade, maldade, perversidade, que significam crueldade. Espero não estar enganado, mas acredito que esse é um dos raros exemplos destoantes desses termos clichês, os quais usamos com frequência para descrever situações. Provavelmente, herdamos esses vícios dos noticiários mais antigos da mídia. Sou um saudosista-confesso dessas expressões por passarem exatamente o que se quer dizer e imprimirem um quê de brilho, grandiosidade ou dramaticidade à dupla substantivo mais adjetivo e, às vezes, advérbio.

Nada mais lastimável que “lastimáveis acontecimentos”; e o que dizer das climáticas “chuvas torrenciais” e “calor senegalesco”?; e o confronto entre os “intrépidos agentes da lei” e os malfeitores “fortemente armados”, mas que fugam em “desabalada carreira”; e aquelas “polpudas verbas”, que se perdem na burocracia e na corrupção?; tudo isso é de “vital importância”, a merecer uma “crítica construtiva”. O futebolês de antigamente era prenhe desses termos, mas particularmente gostava muito do “ponteiro expedito”, sempre ágil na definição das jogadas.

Os puristas do estilo recomendam economia nos adjetivos e parcimônia nos advérbios para a construção de um “texto escorreito”. Já eu, acho que adjetivos e advérbios foram feitos para serem usados, mas têm sido vítimas de uma “discriminação odiosa” para adotar outra expressão na medida para o caso. Entre forma e conteúdo, prefiro o que garanta a clareza do que precisa ser transmitido.

Pra não dizerem que não  falei em eleição, desejo ao prefeito eleito de Porto Alegre, Sebastião Melo, com sua “estrondosa vitória” uma “calorosa recepção” no dia da posse, em que pode estar “visivelmente emocionado” com a “alegria contagiante” de todos, num ambiente “feericamente iluminado”, e que durante o seu governo não cometa  “erros grotescos” de gestão, evitando “obras faraônicas” e feche o mandato com “chave de ouro” na aprovação popular.

Autor

Flávio Dutra

Flávio Dutra, porto-alegrense desde 1950, é formado em Comunicação Social pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), com especialização em Jornalismo Empresarial e Comunicação Digital. Em mais de 40 anos de carreira, atuou nos principais jornais e veículos eletrônicos do Rio Grande do Sul e em campanhas políticas. Coordenou coberturas jornalísticas nacionais e internacionais, especialmente na área esportiva, da qual participou por mais de 25 anos. Presidiu a Fundação Cultural Piratini (TVE e FM Cultura), foi secretário de Comunicação do Governo do Estado e da Prefeitura de Porto Alegre, superintendente de Comunicação e Cultura da Assembleia Legislativa do RS e assessor no Senado. Autor dos livros ‘Crônicas da Mesa ao Lado’, ‘A Maldição de Eros e outras histórias’, ‘Quando eu Fiz 69’ e ‘Agora Já Posso Revelar’, integrou a coletânea ‘DezMiolados’ e ‘Todos Por Um’ e foi coautor com Indaiá Dillenburg de ‘Dueto – a dois é sempre melhor’, de ‘Confraria 1523 – uma história de parceria e bom humor’ e de ‘G.E.Tupi – sonhos de guri e outras histórias de Petrópolis’. E-mail para contato: [email protected]
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