Em 5 de abril, um homem invadiu a escola de educação infantil Cantinho do Bom Pastor, em Blumenau, Santa Catarina, e assassinou quatro crianças, além de ferir outras cinco. Desde então, jornalistas acompanham de perto os desdobramentos do caso, incluindo Felipe Sales, repórter da NSC TV. Na parte final da série de reportagens exclusivas de Coletiva.net, o profissional comentou sobre as especulações e a condução do “pós-fato”.
Para ele, a mídia local tem um forte papel em elevar a autoestima da região. Além de continuar a cobrir os fatos para que o crime não seja esquecido – com o cuidado de não caminhar para o sensacionalismo -, é preciso investir no “Jornalismo propositivo, de ideias e soluções”. Na opinião de Sales, um telespectador, ao se deparar apenas com a tristeza, não conseguirá se reerguer. “E esse é nosso desafio agora: encontrar o tom dos próximos dias. Das próximas reportagens e entradas ao vivo”, defendeu.
Confira a parte final da entrevista logo abaixo:
1) A gente não vive só para informar, a gente tem um papel social de transformar, reduzir danos. Então pergunto a você: não falar que faz parte de um jogo também não é uma estratégia que vise a segurança, afinal, não se dá palco ao autor do crime, mas, de certa forma, se dá a sua obra e instaura um pânico nos pais. Não é sobre não falar o nome do assassino, mas também sobre não falar aquilo que o motivou. Acha que isso é uma possibilidade como a levantada pelo MP?
Eu confesso que fiz essa reflexão por cima. Essa é uma informação que teremos que dar: as motivações. E toda a Polícia de Santa Catarina está se debruçando nessa pergunta. Em depoimentos, ele já falou que agiu sozinho, mas também que havia uma pessoa que o estava perseguindo e mandando que ele fizesse isso. Quando essa resposta oficial chegar, e isso virá na conclusão da perícia do inquérito, é óbvio que a gente vai ter que dar. Mas eu não gosto de ficar no âmbito da suposição também. Eu não acho isso interessante.
Tem também um debate se ele estava em surto ou não. Enquanto não houver um laudo de um psicólogo, de um psiquiatra forense, eu não sentirei firmeza de trazer esse assunto à tona mesmo. Eu não gosto de nada que seja muito especulativo. E essa história do jogo, já na quarta-feira, eu vi uma coletiva com todas as forças de Segurança do Estado e do município, na qual o delegado geral aqui de Santa Catarina, Ulisses Gabriel, já desmentiu. Aí, a partir do momento em que ele desmentiu, eu comecei a trazer isso à tona. Eu falei que havia uma especulação, mas que a Polícia já negou essa hipótese de pronto. E também é isso: não vou explicar como esses desafios acontecem. Quanto menos armas dermos aos curiosos, melhor. Informamos que a motivação não tem a ver com games e isso basta.
2) Você passou por outra situação delicada, onde se viu diante da intervenção do tio de uma das vítimas, ao vivo, no ‘Bom Dia Brasil’, justamente criticando a exposição do assassino. Entendendo que ele está passando por um momento de revolta e que a crítica não foi direcionada a sua pessoa, e sim a conduta ética dos veículos de Comunicação, como você conduziu a situação?
Eu não gosto de ser invasivo. Nessa cobertura, eu e meu cinegrafista estávamos um tanto distantes de tudo. Não nos aproximamos com a câmera, não chegamos perto de caixões. Era um momento de família, dos amigos, dos próximos. Ficamos bem longe, lá no estacionamento do cemitério. Terminei o ‘Bom Dia Santa Catarina’, ligaram-me do Rio de Janeiro para fazer o ‘Bom Dia Brasil’. O tio eu já havia conhecido na quarta-feira em que tudo aconteceu. Houve um momento semelhante ao que aconteceu com o pai do Bernardo. A tia do menino começou a falar, os outros microfones se aproximaram, eu também me aproximei e gravei para usar posteriormente se fosse o caso. E ele se aproximou ao lado e, ali, naquele primeiro momento, ele já se manifestou descontente com as emissoras de TV aqui no Brasil por questões de posicionamentos políticos e afins, digamos assim. E aí, na quinta-feira, eu não tinha percebido a presença dele no ambiente, até o momento em que terminava a vinheta de abertura do jornal. Então ouço a voz dele com as falas de tons políticos. Eu fiquei em silêncio. E quando ele percebeu que eu estava ao vivo, se aproximou e falou o que todos ouviram.
Quando nós fizemos as coberturas eleitorais no ano passado, tivemos alguns episódios de pessoas invadindo links de entradas ao vivo de nossos repórteres, e todo um protocolo foi montado para cobertura eleitoral do que fazer caso invadam um vivo, do que fazer caso a equipe se sentisse intimidada, perseguida. E a primeira coisa é devolver para o âncora do estúdio e ele fazer a amarração que for necessária. E quando me vi fazendo a primeira frase do vivo e o homem me interrompeu, eu só devolvi para o estúdio.
Terminei, abaixei o microfone, olhei para ele, ele foi se afastando e continuou nos ofendendo, e não me senti no direito de falar nada. E aquele homem, depois de fazer isso, chorou copiosamente. E eu e meu cinegrafista nos olhamos e falamos para irmos embora dali. Descemos e fomos fazer todos os vivos restantes do lado de fora do cemitério. Porque eu achei que estava conseguindo de alguma maneira não ser invasivo naquele momento, mas quando aquele tio reage daquela maneira, claro que por motivos alheios, eu percebo que, mesmo não querendo, eu estava invadindo aquela realidade, e aí eu saio. A Globo ficou muito cautelosa com isso. O Jornalismo da Globo pediu que eu fizesse boletins, não quiseram mais fazer entradas ao vivo, por ser mais seguro para mim e para eles.
3) Quais os maiores desafios em coberturas de tragédias como essa?
Saber o limite, até onde estamos conseguindo ter uma cobertura técnica, ética, e em que momento estamos passando do ponto. Qualquer negativa que eu receba de um pedido de entrevista em um momento como esse eu vou respeitar, sobretudo de pessoas envolvidas nessa história – eu não sou do tipo que insiste.
Um outro grande desafio é no pós-fato – quando que a gente vira a chave? Ao passo que a gente entende que não pode esquecer isso – e tem que continuar pautando para que as investigações se concluam, para que a segurança nas escolas seja reestabelecida -, a gente entende também que, todo dia, mostrar aquelas imagens daquela creche, dos velórios, pode soar para muitas pessoas até desrespeitoso.
E acho que a gente que é da mídia regional tem um papel muito grande na elevação da autoestima da região. Porque nos primeiros dias a gente tem que fazer vivos da porta da creche, que é onde tudo aconteceu, onde as homenagens estão acontecendo, os fatos estão se conectando. Mas já não é mais tempo de voltarmos a essa imagem. Está na hora de fazer um Jornalismo propositivo, de ideias, de soluções. Segurança, dispensa de licitação, o que é necessário para que as medidas de segurança sejam colocadas em prática o quanto antes; vamos para a escola mostrar que ainda existe alegria no ambiente escolar.
A gente tem um grande desafio que é continuar cobrindo esse fato, que é trágico, mas sem parecer que estamos nos aproveitando dos fatos e sendo sensacionalistas. A gente quer que a autoestima da comunidade que nos assiste se eleve novamente para que a cidade volte a caminhar. Porque se um morador da nossa região, cada vez que ligar a televisão se deparar só com a tristeza dos fatos, ele não conseguirá se reerguer, sobretudo se for um familiar. E se ele liga, vê que um fato está sendo relembrado, mas avançando com novas perguntas, proposições, com ideias de soluções para a cidade, com serviço, aí a gente crê que vá fluindo melhor. E esse é nosso desafio agora: encontrar o tom dos próximos dias. Das próximas reportagens e entradas ao vivo.
4) Qual foi seu maior aprendizado? O que você leva para a vida dessa experiência?
Eu acho que apesar de eu ter tido medo de ser empático, a gente (jornalistas) não pode ter esse medo. Não quero ser destaque, a minha dor nunca vai ser maior do que a do outro. Mas o profissional jornalista precisa aprender a ser empático; precisa entender que há um interesse público na história, e que as pessoas têm direito a essa informação, mas que não precisa, para dar essa informação, avançar no espaço e desrespeitar o tempo de quem está vivendo aquela dor. Então, eu acho que de ensinamento, sobretudo para carreira, foi o fato de ter tido a certeza de que quando eu achar que atingi meu limite eu posso dizer.
Quando eu me vi dizendo isso para a equipe da Globo – dessa vez quando eles me pediram entrevistas no velório, e eu percebi que não seria viável, que eu não iria conseguir -, e essa opinião foi respeitada, eu vi que há espaço para o diálogo. O aprendizado que fica é a importância de a gente entender que a sensibilidade se faz necessária.
Esta matéria integra uma série de reportagens especiais assinadas pela gerente de Projetos de Coletiva.net, Tássia Jaeger. Ela conversou com Felipe Sales, repórter da NSC TV que atuou na cobertura da tragédia na creche Cantinho do Bom Pastor, em Blumenau, Santa Catarina, ocorrida em 5 de abril de 2023. Confira também a primeira e a segunda parte da entrevista.

