Perfil

Paulo Louzada: Entre o simples e o erudito

Chargista que deu rosto e vida ao ‘Último Guasca’ fala sobre sua infância, inspirações e experiências.

Se você mora no Rio Grande do Sul, certamente já deu de cara com um tipo muito peculiar nas páginas dos jornais: rosto em formato de cuia, longos bigodes, pilcha e uma inocência quase infantil. O ‘Último Guasca’, como o caricato personagem Tapejara é conhecido, não tem muito a ver com o seu criador, Paulo Ricardo Louzada de Almeida. Aos 55 anos, ele é bem-humorado, tem o raciocínio rápido e certa acidez na fala, características inerentes a todo bom chargista. Afinal, não é fácil retratar a realidade de forma divertida em três quadrinhos e alguns poucos balões.

Erudito

No começo da entrevista, ele está tomando cerveja em um clube, em um domingo frio de Porto Alegre. Logo na pergunta mais clichê do Jornalismo (“qual o seu nome completo”), Louzada discorre sobre a possível origem árabe de nossas famílias) em função do sobrenome Almeida, o qual compartilhamos. Trata-se de um homem no mínimo despojado e curioso, o que se confirma ao longo da conversa de quase duas horas. 

Com eloquência na fala, o chargista, que quase foi publicitário, passeia por diversos temas com propriedade, apesar de não ter cursado a faculdade. Para ele, a grande questão é o discernimento individual e a formação de base, o que fornece a possibilidade de criar conexões com a realidade. Além, é claro, de ser até hoje um ávido estudante, que apenas preferiu aproveitar a vida. “Eu passei no vestibular e em seguida fiquei alguns meses em Santa Catarina. Foi o que salvou minha pele”, conta, rindo. 

Entre os campos e o asfalto

O tipo agropastoril retratado em suas tirinhas não é uma representação de algo distante. Vindo de uma família que se formou na campanha gaúcha, a lida dos campos, a relação com os animais e as paisagens interioranas fazem parte de sua história antes mesmo de ele nascer. Neto de um fazendeiro e filho de uma enfermeira e de um sargento do exército, que viraria vendedor de máquinas de tipografia, ele passou a infância entre o apartamento em Porto Alegre, o interior do Rio Grande do Sul e os estados de Mato Grosso e Rio de Janeiro, visitando as casas de parentes.

É dessa experiência que emerge seu desenho mais famoso. “Não adianta criar um personagem e não ter vivência dele, senão soa falso. Criei o Tapejara justamente porque eu conheço esse cara do campo, esse folclore”, conta. Sobre o ‘Último Guasca’, o criador ainda revela: “Ele é um Frankenstein, uma junção das minhas experiências. O rosto dele copiei de um conhecido que tinha um bolicho aqui em Porto Alegre”. A proposta do personagem é simples: ser leve e divertido, mas nunca brincar com tragédia. “Morreu alguém, acabou a piada”, afirma, categoricamente.

Arte, liberdade e Van Gogh

Desde a primeira infância, Louzada já desenhava, o que considera um chamado, uma vocação. Quando a arte entrou na sua vida? Ele nem sabe responder. Ao contrário, reflete, entre risos: “Eu não sei como vocês não desenham”.  Mas, é claro, também há muito de dedicação: para ele, o talento nada mais é do que a vocação aliada à insistência. “Uma pessoa que realmente tem talento sabe que aquilo não pertence a ela, é um empréstimo. Nesse sentido, se tu não tens mérito, também não tem culpa. Afastar o ego é muito importante”, reflete o artista, que não demora mais do que o tempo de preparar uma omelete para fazer uma tirinha. 

Como para ele desenhar não é propriamente um trabalho, uma vez que os traços se confundem com a sua vivência de forma íntima, 24 horas por dia, o espaço ocioso é o que gera certo incômodo. “A rotina, quando ela te pega, acaba contigo. Sabe aquela coisa Raul Seixas ‘compro móveis, estofados e me aposento com saúde pela assistência social’? Não é isso que traz progresso. As pessoas, inclusive eu, perdem muitas oportunidades por se acomodar”, pondera, enquanto bebe goles de cerveja e conta sobre a expectativa de, assim que possível, viajar por aí, observando detalhes e conhecendo pessoas. “Hoje em dia, há muitas profissões nas quais é possível trabalhar em qualquer lugar com uma mochila nas costas, sem ser proprietário de quase nada. E esse é meu sonho. Quando eu era pequeno, vi um filme do Van Gogh, ele colocava as telas nas costas e saía por aí. Isso me inspira muito”, conta.  

Um homem eclético

Louzada não tem animais de estimação – há anos, preferiu doar a cadela Chinoca, em vez de privá-la da liberdade de ter um pátio, ao se mudar para um apartamento. Depois, não teve boas experiências com gatos (uma felina de estimação comeu uma torta deixada em cima da mesa, acabando com a confiança dele na raça). Por outro lado, hoje, empresta um andar da sua casa em Porto Alegre para um casal de amigos manter um abrigo para gatos.

Além da liberdade, o chargista, que é solteiro e não tem filhos, adora praticar exercícios físicos. Com 42 anos, começou a treinar jiu-jitsu, depois foi para o judô, além de nadar. Em função da pandemia, não tem viajado tanto quanto gostaria, mas se considera um privilegiado, afinal, faz “quatro refeições diárias, tem esgoto e água tratada”. Durante uma época, fez motocross e também já plantou tomates e temperos em casa. Em relação ao gosto musical, ele se considera um pesquisador eclético, indo dos clássicos como Bach ao chorinho. “Bob Dylan que me perdoe, mas Raul Seixas é universal”, afirma.

“Uma baita sem-vergonhice”

Como desde cedo sabia que tinha facilidade para o desenho e as pessoas o elogiavam, o trabalho não foi exatamente uma prioridade durante a juventude. “Eu pensei o seguinte: vou primeiro curtir a vida e depois eu vou desenhar”, e foi isso que aconteceu. Dos 20 e poucos aos 30 anos curtiu demais, tanto que mal se lembra. Afinal, segundo ele, quem diz que se lembra dos anos 80 é porque não aproveitou esta década. 

Quando resolveu que precisava ganhar dinheiro com os seus traços, mal precisou colocar o pé para fora de casa. “Estava em uma parada de ônibus, aqui em Porto Alegre, com um calhamaço de trabalhos embaixo do braço. Enquanto esperava, encontrei um amigo, que na época trabalhava na Zero Hora. Ele me disse que estavam abrindo um jornal novo e me perguntou se eu tinha algum personagem para mostrar. Respondi que tinha o Tapejara, e dei para ele os materiais que tinha ali. Dois ou três dias depois me ligaram e eu fui contratado.” Assim ele entrou no Diário Gaúcho; o ano era 2000. 

Hoje, Louzada atua em quatro jornais diários de forma independente e preza muito pela autonomia. Essa liberdade permite que ele esteja nas ruas, nos bares, nas praças, observando diretamente os casos cotidianos que retrata de forma simples, através do rústico gaudério. “Hoje, eu me considero mais um escritor que um desenhista. Condensar o texto é muito difícil, é preciso escolher as palavras certas para o espaço limitado do balão. Pelo menos, se não for engraçado, não vai ser chato”, afirma.

Autor

Renata Cardoso

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