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Antigos Novembros

“Alice: Quanto tempo dura o tempo? 

Coelho: Apenas um segundo“.

Lewis Carrol.

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Meus Novembros foram muitos, tantos que perco as contas. O primeiro foi quando nasci na casa que ficava ao pé do morro da Glória. Nos Novembros seguintes, eu estava bem aconchegado no colo da mãe e afagado pela mão faceira do pai. O de número Dez encontrou a cidade inundada pelas águas do rio enquanto o rádio falava da guerra. Então vieram os Novembros no sobrado da Vasco da Gama, festejados com bolo de velinhas e guaraná. 

***

Os anos passaram leves como brisa e lá estou eu montado em um cavalo manso diante dos campos verdes a perder de vista. As noites eram longas e quietas, sem latidos ou mugidos, mas eu ouvia barulhos estranhos nos quartos vazios. A mãe chegava em seu chambre de seda de flores vermelhas e amarelas, rezando baixinho para os padroeiros que levo no nome, São José e Santo Antônio. 

Muito mais tarde, a cada novo Novembro, eu escutava o meu padrinho contar da lua cheia na noite em que nasci, que era quase azul. O pai se dizia feliz pelo primogênito e a mãe se lembrava das noites estreladas de sua infância.

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A mãe ouvia quieta as previsões da Tia Julieta sobre meu futuro, mas não sei se acreditava em tudo aquilo. Acho que ela botava mais fé nas orações que fazia no chão de pedra da igreja de Santa Terezinha. Ela dizia que, com o passar do tempo, a gente vai esquecendo de quase tudo de quando éramos crianças. Mas alguns vestígios permanecem – algumas emoções mais fortes, as noites de tristeza e os dias de pura alegria. E também os  momentos em que a vida nos mostra seu verdadeiro significado. Comigo não foi diferente e foi um susto e tanto.

Aconteceu quando percebi que em meus Novembros as coisas do dia-a-dia ao meu redor pareciam ter acontecido antes como o dejá-vu que se vê nos filmes. Eram episódios com os mesmos cenários, rostos, vozes, sons e cores de algum lugar no passado. Até hoje não sei se eram por conta dos presságios da Tia Julieta ou sortilégios das estrelas dos céus de Novembro. 

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Autor

José Antônio M. de Oliveira

O colunista é um veterano jornalista e publicitário. Assina uma coluna no Coletiva desde 2005. Foi repórter e redator nos jornais A Hora, Jornal do Comércio, Folha da Tarde e Correio do Povo. Como publicitário, atuou na MPM Propaganda nas sedes de Porto Alegre, do Rio de Janeiro, de São Paulo e também em Nova York, durante o convênio MPM / N.W.Ayer Advertising. Criou e redigiu comerciais e anúncios para Ipiranga, Renner, Banco do Brasil, Embratur, I Love New York, Pan American World Airways e American Airlines. Diretor de Comunicação do Grupo Iochpe, foi co-fundador do CENP, a entidade de normas éticas para anunciantes e agências de publicidade. Em 2021 publicou o livro de memórias ‘Entre Dois Verões’ – já esgotado – contendo 30 crônicas sobre sua infância nos campos do Sul e na Porto Alegre dos anos 50. Agora, volta à cidade em seu segundo livro, ‘Um Rio Portas Adentro’, onde registra e relembra as grandes cheias que assolaram a cidade em 1941 e 2024 e presta tributo a algumas das personagens mais singulares e sedutoras que agitaram Porto Alegre em seus anos dourados. E-mail para contato: [email protected]
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One Comment

Virgínia Mello

Acho que os presságios da tia Julieta rsrsrs. As estrelas coitadinhas, só piscavam minorando com a sua beleza o impacto das previsões. rsrsrs
Linda crônica!

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