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Até o último gole

Por Renato Dornelles

Entre as histórias do tempo de profissão, para muitos jornalistas, sempre tem aquelas com algo a ver com noitadas. Então, vou falar um pouco de boemia, na história de hoje. Sim, admito que tive uma fase boemia em minha vida, cujo lema era “mal dormida e bem vivida”. Bem vivida porque mal dormida.

A gente se dá conta de que está vivendo na boemia quando em tudo que é bar e restaurante que se vai o garçom nos chama pelo nome e já pergunta: “a de sempre?”. Na sequência, já no final da noitada, se pega no sono no táxi (na época não havia transporte por aplicativo) e se é acordado pelo taxista em frente de casa. Indagado sobre como sabia o endereço, o motorista responde: “Ih, já te trouxe aqui tantas vezes que até já decorei.”

Pois bem, então, já fui um boêmio. Uma das histórias mais curiosas deste período ocorreu na companhia do meu amigo Foquinha e de outros parceiros. Era a despedida de um colega fotógrafo, que partia para novos desafios. Como era tradicional, o começo foi no tradicional bar Porta Larga.

Aliás, sobre o Porta Larga, em um tempo em que as redações eram ainda com máquinas de escrever, esfumaçadas por uma maioria fumante, e em que era comum jornalistas beberem em meio ao expediente, brincava-se dizendo que seria instalado um ramal no bar, para poupar os office-boys de ter que ir até lá para chamar os profissionais.

Voltando à despedida do fotógrafo, depois de um churrasco e das primeiras muitas cervejas, a festa mudou de endereço. Fomos para um bar na avenida Bento Gonçalves, onde ficamos até o início da madrugada. Mas pareceu insuficiente. Seguimos então para uma churrascaria que à época ficava aberta a madrugada inteira, fechando somente às 7h. Era uma espécie de Bar Esperança (O Último que Fecha), para quem assistiu ao filme de Hugo Carvana, de 1983. Pensei que a noitada seria encerrada ali.

Ledo engano. O Foquinha era um dos caras mais regrados da turma. Bom marido, bom pai (hoje, bom avô) tomava suas cervejinhas, mas costumava se recolher cedo para casa. Naquele dia, porém, parecia tomado pelos espíritos dos deuses Baco e Dionísio (no que diz respeito à bebida, fique claro).

Às 7h, já na manhã de uma sexta-feira, saímos da churrascaria.

Mas o Foquinha queria mais.

“Vamos tomar uma saideira”, disse ele.

“Mais uma? A esta hora não tem lugar aberto pra isso”, respondi.

“Fica tranquilo. Tem o bar do meu compadre, que não fecha”, contra-argumentou.

Estávamos ainda em quatro. A pé, subimos a Avenida Borges de Medeiros, passamos pelo histórico viaduto Otávio Rocha, cheio de bares e lancherias (para quem não é gaúcho, por aqui não se fala lanchonete), mas, naquele horário, só serviam café, sucos e vitaminas. E nada de chegarmos ao tal bar do suposto compadre do Foquinha. Acabamos chegando no Mercado Público, a 2km do ponto de partida.

O Mercado propriamente dito estava fechado, mas havia bares com portas pelo lado externo, o que lhes dava autonomia de funcionamento. Entramos em um desses e, para nossa alegria, estava vendendo não só cerveja, como também tira gostos.

Pedimos um picadinho de frios e começamos a tomar cerveja. Na hora daquelas que seriam realmente as duas últimas, colocamos as mãos em nossos bolsos e começamos a catar notas e moedas para pagar a conta. Foi quando nos demos conta de que faltavam 25 centavos (equivalentes, naquela época, a 25 cents de dólar).

Neste momento, um cidadão em situação de rua entrou no bar, viu várias moedas sobre a mesa e pediu uma ajuda. O Foquinha, educadamente, lhe explicou:

“Bah, meu, tá difícil. Está até faltando 25 centavos pra pagar a conta”.

Foi quando o cidadão de rua nos surpreendeu pela primeira vez: tirou uma moeda de R$ 0,25 do bolso e colocou junto às nossas.

Agradecemos, lhe oferecemos picadinho de frios, ele aceitou, e o Foquinha foi além:

“Aí meu, aceita um copo de cerveja?”

Foi então que o morador de rua nos deu uma grande lição:

“Não, obrigado. Eu não bebo pela manhã”.

Restou-nos pagar a conta (com a inestimável ajuda do morador de rua) e irmos para casa refletir, antes das poucas horas de sono que nos separavam de uma nova jornada de trabalho.

Autor

Renato Dornelles

Jornalista, escritor, roteirista, produtor, sócio-diretor da editora/produtora Falange Produções, é formado em Jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) (1986), com especialização em Cinema e Linguagem Audiovisual pela Universidade Estácio de Sá (2021). No Jornalismo, durante 33 anos atuou como repórter, editor e colunista, tendo recebido cerca de 40 prêmios. No Audiovisual, nos últimos 10 anos atuou em funções de codireção, roteiro e produção. Codirigiu e roteirizou os premiados documentários em longa-metragem ‘Central – O Poder das Facções no Maior Presídio do Brasil’ e ‘Olha Pra Elas’, e as séries de TV documentais ‘Retratos do Cárcere’ e ‘Violadas e Segregadas’. Na Literatura, é autor dos livros ‘Falange Gaúcha’, ‘A Cor da Esperança’ e, em parceria com Tatiana Sager, ‘Paz nas Prisões, Guerra nas Ruas’. E-mail para contato: [email protected]
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