img src=”fotos/coluna_eliziario_25_06.jpg” align=”right” border=”1″>Acompanhei a polêmica sobre o Jornal da Copa da Zero Hora no dia de Brasil x Inglaterra, com versões de vitória e derrota do Brasil. Infelizmente, não pude ver a tal capa, porque a ZH é como frente fria, nem sempre chega ao centro do país. Tentei no site, mas, ou perderam uma ótima chance de fazer o chamado “marketing de oportunidade” ou o site é tão confuso que não consegui encontrar o material (aliás, primeiro é preciso entrar no clickrbs e procurar o link do jornal, o que é uma boa maneira de desestimular leitores em potencial). Não tive a menor dificuldade em relação ao Correio Braziliense, que seguiu a mesma linha. No caso do Correio, capas inusitadas não são novidade. O diretor de redação, Ricardo Noblat, tem por norma estimular a criatividade, em especial na capa. Tanto que talvez seja o único jornal standard a assumir a expressão “capa”, em vez de “primeira página”, o que revela uma importante diferença conceitual. Quando erra, pode dar vexame, mas, quando pega na veia, é golaço junto aos leitores.
O Correio publicara uma capa famosa, entre tantas que fizeram história bem além dos limites do Distrito Federal, no dia seguinte a Brasil x França pela Copa de 1998. O favoritismo da seleção, a empolgação nacional e o potencial de Ronaldo sem as misteriosas convulsões levaram a equipe do Correio a preparar antecipadamente uma capa de celebração ao penta. Os fatos contrariaram nosso desejo, como se diz nas redações, a França foi campeã e etc., mas Noblat decidiu que prevaleceria a pauta. Publicou a capa com o Brasil Penta, acompanhada de uma explicação. O jornal, como todos os brasileiros, estava inconformado com a derrota e resolvera celebrar o sonho, em vez da realidade.
Essa é vantagem de um país possuir tablóides assumidos, não como os nossos, só no tamanho, mas nas intenções, como os da Inglaterra. A capa do Daily Mirror, anunciando que a manchete havia sido cancelada, correu o mundo pela ousadia editorial e gráfica, e no Brasil foi vista apenas como folclórica, um ícone da frustração “daqueles gringos metidos”. Ok, dadas as circunstâncias, vale a flauta. Mas deveríamos também festejar a existência da imprensa rotulada como sensacionalista. Em tempos de politicamente correto, judiciário excessivo e hipocrisia absoluta, é compensador saber que ainda existem veículos que podem se dar ao luxo de traduzir com precisão o sentimento popular. Com uma pequena variação, o Mirror fez agora o que o Correio fez em 98. Lá é rotina. Aqui é ocasional e depende da clarividência do diretor de redação.
O tablóide exagera, calunia, exaspera, mas traduz como nenhum outro o que, no caso, o torcedor pensa e grita diante da televisão. No dia da abertura da Copa, e silhueta de Beckham e sua juba e, nos dias seguintes, outras duas capas com fotos do ídolo definiram o que os ingleses poderiam esperar. Na terceira, a manchete afirmava que a Inglaterra se classificaria para as oitavas e conquistaria a Copa, e lançava o desafio de verificar, a partir das 9h20min, se eles tinha razão. Depois veio a famosa foto-montagem dos argentinos postados na barreira se defendendo de uma cobrança de falta, imagem à qual foram adicionadas bolsas femininas. Além do abusado título “Não esqueçam suas bagagens de mão, queridas”, a suíte da provocação: “Como dissemos ontem…” Outras manchetes desafiavam Michael Owen a provar que era o melhor atacante do mundo; desdenhavam do Brasil ao proclamar “que venha a Bélgica”; perguntavam o que poderiam fazer Rivaldo, Ronaldinho e Ronaldo (Ronaldinho em destaque e Ronaldo em segundo plano); e, finalmente, em “letras garrafais”, como diziam antigamente, “Por que nós vamos vencer”, apontando 12 razões para isso e lembrando o triunfo de 1966. Não é uma delícia? O editor deve se divertir. Bem melhor que ter de colocar na capa títulos insossos e sempre iguais do tipo “Brasil vence e avança na Copa” ou coisa do gênero.
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Na semana passada, ao criticar o tom intimista dos telejornais, afirmei: “Temo ligar a TV pela manhã, um dia desses, e ver os apresentadores de pijama, dando as informações entre um gole de café e uma mordida nas torradas.” Recebi da jornalista gaúcha Elaine Portela o seguinte e-mail: “Caro Eliziário, sinto informar, mas seus temores já se materializam, com exceção dos pijamas. Ao ligar a televisão pela manhã na Rede Record você contemplará Mônica Waldvoguel e Rodolpho Gamberini saboreando, entre uma notícia e outra, um gole do mais saboroso suco de laranja acompanhado de torradinhas, brioches, frutas e café (ficamos salvos do pão com mortadela). O jornalístico, que vai ao ar às 08:00, de segunda à sexta-feira, é dinâmico, informativo e muito performático”.
Agradeço à Eliane e peço perdão aos leitores pela minha desinformação. Homem de hábitos noturnos (gosto de escrever até altas horas), não costumo ligar a TV pela manhã, o que hoje faz menos falta graças aos sites de notícias (durante a Copa, permaneço acordado e assisto a todos os jogos). Fico feliz em saber que, por enquanto, estamos livres da mortadela. Mas, minha cara Elaine, qualquer dia desses alguma TV do Rio Grande terá um noticiário cujos apresentadores vestirão bombachas e, entre uma notícia e outra, passarão a cuia de mão em mão, enquanto consomem pinhões assados na chapa (isso se já não existe). Aposto um sanduíche de mortadela!
Dedicado a Ricardo Noblat
