A imagem de Rubens Barrichello na mídia vai de medíocre a grande piloto. Do incapaz de ser o primeiro ao capaz de segurar as pontas de dividir uma equipe com Michael Schumacher e não fazer feio. Se para a turma do Casseta e Planeta ele é um pé-de-chinelo e para Galvão Bueno um quase herói nacional é porque o próprio Rubinho nunca soube exatamente quem é em termos de hierarquia esportiva. Galvão e os Cassetas têm, ambos, suas razões. Ninguém sem talento consegue vencer a Fórmula 3000, tampouco se manter por tantos anos na Fórmula-1 e muito menos guiar uma Ferrari. Chamá-lo de medíocre é, em tese, uma injustiça. Por outro lado, passar vários anos pilotando o melhor carro da categoria e conseguir uma única vitória está, em tese, bem perto de um desempenho medíocre.
Que a Ferrari privilegia Michael Schumacher não há dúvida. Mas quem não o faria? Além disso, que às vezes Rubinho é meio azarado também é notório, embora estes fatos não sejam suficientes para explicar o currículo frustrante. O principal problema está no próprio Rubinho, que não soube se reinventar. Ele fazia uma carreira promissora a bordo de um mediano Jordan. Já era cobrado pela falta de ousadia, é verdade, mas nem de longe a exigência era a mesma da era Ferrari.
Ao pilotá-la, Rubinho realizou um sonho universal. A Ferrari da réplica perfeita, comprada com a poupança da mesada, a deslizar sobre as dobras do lençol na antessala dos sonhos de cada menino e, depois, o menino já crescido, o objetivo a ser alcançado, o cristalino objeto de desejo, mesmo se banalizado por jogadores de futebol deslumbrados, aquela máquina capaz de andar a velocidades absurdas, incompatíveis com estradas reais, detalhes perfeitamente ajustados às ambições presentes apenas no imaginário masculino. Não é só status, é prazer puro, que nenhuma outra máquina conseguiria proporcionar.
Mesmo quando tiveram carros quase perfeitos, Williams e McLaren não provocaram o mesmo sentimento no imaginário popular. A McLaren, em mais de uma ocasião, exibiu projetos imbatíveis, como nos tempos dos duelos memoráveis entre Ayrton Senna e Alain Prost. Mas a McLaren de hoje é cinza chumbo com cinza claro e retoques em vermelho, combinação de extremo bom gosto, mas que antes foi vermelha e branca, e antes disso teve outras cores. Não tem o vermelho único, a ponto de ser chamado de Vermelho Ferrari, não tem a alma de todas as máquinas saídas da requintada linha de produção na Itália, berço da Ferrari e, não por acaso, do exagero passional. Ao pilotar nossos sonhos, Rubinho perdeu o direito de nos frustrar.
Há, também, o efeito Schumacher. A cada vitória, o piloto alemão, por ter talento e tempo, derruba novas marcas de Ayrton Senna, e isso nos chateia. Schumacher é antipático, prepotente, desleal nas pistas e não faz nenhuma questão de agradar, mas é o melhor piloto do mundo atualmente e não há nada que possamos fazer. Rubinho está lá, poderia fazer alguma coisa, mas não faz. O pódio, no entanto, não reserva um lugar para os ressentidos. Temos de engolir qualquer implicância, justificada que seja, em relação a Schumacher, e aceitar a verdade irrevogável: a Ferrari, com seu vermelho puro, seu cavalinho rampante preto em fundo amarelo, a Ferrari de Alberto Ascari, Juan Manuel Fangio, Nikki Lauda, também de John Surtees e, tudo bem, de Jody Scheckter, não pode ficar vinte anos longe do título, para o bem da Fórmula-1.
Por fim, já está na hora de acabarmos com aquele papo de que não é justo comparar Rubinho a Senna. É claro que Senna era especialíssimo, mas, que diabos, qual deve ser o parâmetro, então, se não o número 1, o menino que voava sempre rumo à vitória? Quem sabe um veterano de alguma fórmula obscura? Rubinho não é Senna, ok, mas não deveria, ao menos, tentar seguir alguns de seus parâmetros, como não aceitar que lhe tomem o carro com o qual quase fez a pole? Ele reclamou, mas todos sabem que nada fará a respeito. E, depois, mesmo que não o comparemos a Senna, teremos de compará-lo a Nelson Piquet, tricampeão da F-1, ou a Emerson Fittipaldi, bi na F-1 e campeão da Indy. Ou então encontrar um colombiano para torcer.
Dedicado a Daniel Dias
