'Caso Timeline': representantes da Academia analisam o episódio polêmico da atração da Rádio Gaúcha

Coletiva.net convidou professores de Jornalismo e Publicidade e Propaganda para avaliarem os impactos do ocorrido

Professores de Jornalismo e Publicidade e Propaganda conversaram com o Coletiva.net

Quando se fala em 'caso Timeline', a Comunicação gaúcha sabe a que episódio o termo se refere. Comentários polêmicos do jornalista David Coimbra, junto a sua colega Kelly Matos, sobre os criminosos que assaltaram um banco em Criciúma (SC), feitos durante o programa Timeline, da Rádio Gaúcha, em 2 de dezembro, fizeram com que patrocinadores se retirassem da atração, tornando a situação um case a ser analisado. Após repercutir o episódio, noticiando seus desdobramentos, o Coletiva.net procurou professores de universidades gaúchas para ampliar a discussão, devido à proporção que o caso ganhou no Estado. A relevância da opinião de jornalistas e publicitários que atuam com pesquisa e ensino pode colaborar para uma melhor compreensão do ocorrido e para a reflexão do impacto que ele teve na Comunicação local.

Representando a Academia nesta análise do 'caso Timeline', quatro professores contribuíram com suas visões ao portal. Do curso de Publicidade e Propaganda, participaram Camila Morales, da UniRitter, e Guilherme Caon, da Unisinos. Pelo Jornalismo, foram ouvidos Tércio Saccol, da PUC, e Leandro Olegário, da ESPM-Sul.

Apesar das contribuições conterem uma visão bastante particular de cada autor, todas compartilham uma ideia: a de que o episódio suscitou debates importantes, que devem ser feitos sobre a Comunicação como é pensada e feita atualmente. Também aparecem repetidas vezes na reflexão dos professores a importância das redes sociais no entendimento e nos desdobramentos do fato, assim como o quanto ele causou tensionamento entre marcas e a imprensa, suscitando discussões sobre essa relação.

Confira a opinião na íntegra dos professores que contribuíram com a análise proposta por Coletiva.net (em ordem alfabética):

Camila Morales - UniRitter

Os desdobramentos do caso Timeline tensionam o delicado equilíbrio de forças entre anunciantes e meios. Debater o que ocorreu é ainda mais importante quando consideramos os atuais questionamentos aos valores democráticos.

Muito tem se falado sobre os tribunais digitais, cancelamentos. Porém, este caso possui aspectos singulares, como, por exemplo, o teor das declarações. Comentários equivocados não são uma exceção, falas preconceituosas e ofensivas ocorrem em muitos outros programas,mas parecem passar despercebidas da aversão de agências e anunciantes. Contudo, quando a infeliz colocação do jornalista minimizou a perda de uma instituição do setor bancário, a indignação foi automática. Não coincidentemente, foi uma cooperativa de crédito a primeira a comunicar o cancelamento de seu contrato com o programa. 

A segunda peculiaridade é quanto à agilidade e intensidade da reação dos anunciantes. Nestes casos, geralmente ocorre uma solicitação de retratação ou pedido público de desculpas. As rápidas medidas de rompimento de contratos, como foram vistas neste caso, são muito raras e colocam a pressão diretamente sobre os jornalistas. E acerca disso devemos lançar um alerta: nenhuma organização é obrigada a patrocinar programas que não se alinham com seus valores, mas é fundamental garantir que anunciantes não intervenham em espaços editoriais, sob o risco de colocarmos em perigo todo o sistema democrático.

Seria muito bom se as forças expostas neste episódio servissem de exemplo ao consumidor comum. Assim como os anunciantes se organizam rapidamente contra os conteúdos com os quais não concordam, nós também podemos, através de um consumo consciente e político, promover organizações que se alinham com o que acreditamos. 


Guilherme Caon - Unisinos

As redes foram rápidas em trazer diferentes ângulos sobre os comentários no programa 'Timeline', e dezenas de opiniões sobre o tema pipocaram nas notificações de quem está minimamente conectado. Preferi deixar os enfoques sobre a questão jornalística para os colegas da área. Assim, ao atender o convite para dar minha opinião sobre o ocorrido, quero concentrar meus comentários nas questões de marca, onde tenho atuado mais fortemente no mercado e na academia.

A discussão das marcas, enquanto atores sociais, começou a ganhar maior destaque nos últimos dois anos, através de ferramentas como o propósito, e de práticas sustentáveis que buscam um ambiente econômico e social saudável. No caso específico do programa, temos o exercício de duas liberdades. A primeira delas é a liberdade de os jornalistas expressarem suas opiniões da maneira que consideram adequada, e não pretendo entrar nesse mérito aqui. Do outro lado, temos as marcas preocupadas com sua associação a possíveis 'apologias ao crime', através do patrocínio ao programa. Ao retirarem suas verbas do 'Timeline', elas também exerceram sua liberdade de  defender o que consideram melhor para suas imagens e para a sociedade.

Fenômenos recentes, como o do Sleeping Giants Brasil, mostraram às marcas que ignorar suas inserções de mídia pode, literalmente, custar caro. A pulverização de verbas de veiculação torna cada vez mais difícil para os anunciantes saberem onde suas mensagens estão aparecendo. Se antes a programação de mídia era feita em locais cuidadosamente escolhidos por profissionais, agora, anunciantes são pegos de surpresa pelos absurdos que suas marcas chancelam. É com um espanto cada vez maior que eu vejo, todos os dias, marcas patrocinando falas que vão da violação da ética ao crime tipificado, puro e simples.

Em tempos fortemente polarizados, é cada vez mais difícil achar a fronteira (delicadíssima!) entre um comentário infeliz e uma violação grave. Isso traz uma nova encruzilhada para o mundo das marcas, afinal os veículos continuam dependendo das verbas publicitárias. Se há algo a ser extraído do episódio, é que esses  patrocinadores terão de realizar um debate muito franco e aberto sobre suas responsabilidades dentro do ecossistema da mídia. Nisso vejo algo fundamental, pois essa discussão pode fazer a diferença entre marcas que exercem a censura a opiniões importantes, e marcas que contribuem para que essas opiniões circulem livremente, sem ódio nem preconceito. Pior ainda, essa pode ser a diferença entre fomentar um cenário de fake news ou uma mídia profissional e responsável.

Leandro Olegário - ESPM-RS

Estabelecer uma perspectiva analítica sobre o caso do 'Timeline' é desafiador, pois gera tensionamento entre o olhar acadêmico e o mercado. Mas é fundamental para que, nessa relação dialogada, todos possamos melhorar. O que o episódio revela é a presença do ciberacontecimento nas nossas rotinas. O programa daquela quarta-feira ganhou repercussão mais de 24 horas depois, quando parte do áudio circulou por aplicativos de conversas e redes sociais. Essa mobilização digital promoveu um engajamento, em sua maioria, de usuários que têm restrições ao trabalho da imprensa. A efervescência das manifestações digitais gerou o cancelamento de patrocínios a partir de lógica de adequação às emoções sugeridas pelas bolhas. Até aqui a situação é singular, pois não havíamos registrado a saída em massa de patrocinadores de um programa a partir de um erro cometido por um dos apresentadores.O que isso nos ensina e desperta são diferentes camadas de exploração, as quais me detenho a três em perspectiva de antes, durante e depois da crise gerada:

1- É preciso que as emissoras estabeleçam os paradigmas dos programas, deixando claro a proposta dos produtos entregues. Afinal, o espaço é para informar, entreter ou os dois elementos misturados? Quando é brincadeira ou quando é sério? Como estabelecer as fronteiras do infotenimento para os apresentadores? Como fazer a audiência compreender melhor os espaços de articulação da opinião e da informação? A busca pela renovação da audiência em emissoras de radiojornalismo fez com que houvesse um flerte com modelos distanciados do hard news, com o apagamento do formato de reportagem, inclusive. Essa fronteira borrada sobre ser engraçado ou ser sisudo e, ao mesmo tempo, surfar na pauta da viralização dá margem para o erro cometido pelo programa. 

2- É preciso lidar com erros. Eles fazem parte do processo e das dinâmicas produtivas, principalmente, em programas ao vivo e com liberdade editorial - como preconizam os melhores manuais. As empresas jornalísticas precisam avançar nesse aspecto. Primeiro, ao falar mais sobre jornalismo e explicar para a audiência o processo que resulta nas notícias, tornando cada vez mais claro o que é informação e, com isso,separá-la do que é opinião - seja do apresentador ou da empresa. A presença de ombudsman é um caminho, além de um protocolo para acionamento em caso de gestão de crises. O tempo e o silêncio são os piores inimigos, quando uma solução ao erro não é divulgada no momento oportuno.

3- É preciso que a sociedade identifique, cobre e, sobretudo, reconheça o jornalismo profissional em suas diversas plataformas e serviços. Aquela atividade que é desenvolvida por profissionais capacitados, remunerados e que pertencem à empresas cujo endereço e CNPJ estão disponíveis. Organizações que possuem missão, visão e valores alinhados aos propósitos do papel social do Jornalismo. Há uma oportunidade para que as agências de propaganda e marketing possam ser embaixadoras do Jornalismo profissional ao estabelecer o planejamento de mídia dos seus clientes e ajudá-los nesse mapeamento e orientação.Há um espaço para que se avance na discussão de um letramento midiático nas escolas, formando novas audiências críticas e participativas.

A repercussão do caso se deve, também, à força da rádio Gaúcha, pela liderança no segmento de radiojornalismo e pela qualidade dos seus produtos. Creio que os anunciantes voltarão à emissora em breve. Creio, ainda, que há um amadurecimento dos profissionais no tratamento da opinião e da configuração dos programas. Creio que há um espaço para podermos progredir na defesa do Jornalismo profissional. As ondas de ódio e desprezo à profissão, que reverberam em discursos oficiais nas redes sociais, só enaltecem a importância de uma atividade imprescindível em sociedades democráticas e que se renova no cenário digital ao combater a desinformação, promover curadoria de conteúdo e levar ao cidadão um bem precioso: o direito a saber dos acontecimentos que mexem com as nossas vidas.

Tércio Saccol - Pucrs

A pressão sobre patrocinadores e a posterior ação ajuizada pelo Ministério Público contra o jornalista David Coimbra não fere apenas os pressupostos basilares no qual se apoiam o Jornalismo, ameaçam rasgar (mais um pouco) o tecido social sob o qual coexistimos. 

As ações (jurídica e social) se amparam em uma ideia subjetiva do interesse público e abrem um precedente de rompimento com os pressupostos democráticos, nos quais está o Jornalismo. Ora, para a devida crítica há, em inúmeros e acessíveis espaços, canais. Curiosamente, poucas vozes institucionais se ergueram tão uníssonas contra negacionismo, racismo, misoginia e homofobia recorrentemente escancarados em espaços midiáticos, mas escondidos na falácia de defesa das liberdades individuais, mesmo quando elas eram muito mais incisivas no rompimento com valores como vida e honra.

Ao ensaiarem um boicote ou ataque coletivo em resposta às pressões, marcas anunciam com clareza que os valores aos quais se alinham não são pétreos ou evidentes: estão suscetíveis ao vento, à pressão. Falas infelizes, equívocos ou erros são parte de uma dinâmica onde se fala, apura, analisa e lê fatos ao vivo. A falibilidade é prerrogativa humana, mesmo em um contexto onde mídias sociais não parecem permitir isso. A crítica massiva já recaiu com peso sobre David Coimbra e Kelly Mattos, que pediram desculpas em mais de uma ocasião.  

Grupos travestidos de libertários usam a pretensa conquista para mostrar que podem, organizadamente, ofuscar a atividade jornalística, como já fizeram em tantos outros momentos, sobretudo nos últimos anos. Anunciam que podem silenciar vozes, constranger profissionais, desmobilizar criticidade, cercear a prática jornalística e ativar um senso de receio, já potencializado por veículos fragilizados e em crise. Urge defesa, sustentação e respaldo, não apenas para os apresentadores, mas para jornalistas que lutam contra condições adversas diariamente. E mais do que nunca, cabe a nós discutirmos modelos de sustentabilidade que permitam a prática do jornalismo de forma mais resiliente e combativa. Se sucumbiremos ao ódio e à avalanche da defesa da visão única do mundo é difícil dizer. Mas como pensava o escritor Albert Camus, em 1939, e que adapto livremente para o nosso conflito, "A história levará em conta esses esforços, ou não. Mas eles terão sido feitos".

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