
Para além de encurtar prazos e reduzir custos, o avanço das ferramentas de criação com inteligência artificial propõe uma nova forma de diferenciação entre os profissionais criativos. Em vez de substituir etapas, essas plataformas aceleram a execução, mas expõem, com mais nitidez, a importância do repertório e da capacidade crítica na construção de ideias.
Na leitura de Beto Lopes, especialista em Inovação pela Singularity University, há um equívoco recorrente na forma como o mercado encara o uso de ferramentas de criação com inteligência artificial. “Acredito muito que a IA está aqui mais para nos expandir do que para nos substituir”, afirma. Para ele, o impacto não é homogêneo: profissionais mais experientes tendem a ampliar sua vantagem competitiva ao incorporar essas tecnologias.
Essa assimetria se explica pelo tipo de uso. Embora ferramentas como Midjourney e Adobe Firefly democratizem o acesso à produção de imagens, vídeos e peças criativas, o resultado final ainda depende da capacidade do profissional de interpretar, ajustar e criticar o que é gerado. Assim, o mero acesso não transforma automaticamente todos em especialistas, mas amplia o potencial de quem já domina o processo.
Eficiência operacional das ferramentas de criação com IA
Do ponto de vista operacional, os ganhos são evidentes. Ferramentas de criação com IA permitem produzir mais, em menos tempo e com maior consistência técnica. Há ganhos claros de escala, sobretudo em tarefas como geração de imagens, edição de vídeos e desenvolvimento de variações criativas. Ao mesmo tempo, Lopes chama atenção para o risco do acúmulo de “débito cognitivo”.
Ao transferir etapas inteiras do pensamento para a máquina, profissionais podem comprometer sua própria capacidade criativa ao longo do tempo. Em vez de expandir possibilidades, o uso indiscriminado pode limitar o repertório.
O especialista sintetiza essa tensão em uma lógica simples: “Temos que deixar a IA lavar a louça enquanto a gente faz arte, e não o contrário”. A metáfora aponta para uma divisão de papéis: automação para tarefas operacionais, preservação do pensamento humano nas etapas estratégicas e criativas.
Nesse sentido, o uso mais eficiente desses recursos não elimina o processo criativo tradicional, mas o reorganiza. Para Lopes, manter etapas como brainstorming e construção conceitual, antes de recorrer à IA, é o ideal. “Explore o seu pensar, o seu refletir, a sua capacidade de combinar diferentes coisas para criar algo novo, e, depois, vai explorar com a IA”, recomenda.
O risco da padronização no conteúdo com IA
Outro efeito colateral do uso intensivo dessas ferramentas é a homogeneização criativa. Como modelos generativos operam com base em padrões probabilísticos, inputs semelhantes tendem a gerar outputs semelhantes.
Na prática, isso cria um ciclo de repetição. Profissionais que utilizam prompts parecidos, com pouca variação ou intervenção crítica, acabam produzindo peças cada vez mais próximas entre si. O resultado é uma estética padronizada — tecnicamente correta, mas com baixa diferenciação.
De acordo com Lopes, esse cenário reforça a necessidade de manter o humano no centro do processo. “Para mim, quando eu busco um marketeiro, é muito mais sobre essa capacidade de criar coisas para vender o que eu faço, para conectar com o que eu vendo, do que qualquer outra coisa”, pontua.
Em última análise, ao empregar ferramentas de criação baseadas em inteligência artificial, a capacidade de romper padrões, combinar referências e criar conexões inesperadas passa a ser ainda mais relevante. Isso ocorre justamente por não ser replicável pela lógica probabilística da IA.
Do uso pontual ao centro da operação
Se, no início, essas ferramentas eram incorporadas como apoio pontual, a tendência é que passem a fazer parte das bases do próprio modelo de trabalho. Para Lopes, não faz mais sentido pensar a IA como acessório. Ela se torna parte central da lógica de operação e não pode ser negligenciada. “Muito pelo contrário, ela deve ser trazida para o centro, repensando a lógica das agências e do trabalho”, defende.
Nesse contexto, acrescentou, o que está em jogo não é o fim das funções tradicionais, mas o fim do “business as usual”. “Não se pode mais pensar em uma operação viável, competitiva e saudável, sem ter uma IA de uma maneira muito forte e estruturada. É preciso pensar à luz da inteligência artificial e não apenas integrando soluções pontuais. Então, acho que isso vai ser um fator de diferenciação e, muito provavelmente, quem não trouxer isso de uma maneira estruturada, deve perder relevância no meio do caminho”, projeta.
Recursos de criação com IA se multiplicam, mas o diferencial é humano
Paradoxalmente, quanto mais presente a IA se torna, mais o diferencial competitivo também se desloca para aspectos essencialmente humanos. Lopes destaca duas dimensões que tendem a ganhar peso: a criatividade genuína e a capacidade de construir relações. “Em um ambiente em que tudo está mais homogeneizado, e, por vezes, quase mais pasteurizado, o diferencial vai ser o potencial criativo e a capacidade de conseguir se fazer presente na vida do cliente”, alerta.
Na prática, o perfil do profissional de Marketing e Comunicação ganha novos contornos. Não basta dominar ferramentas; é necessário combiná-las com repertório, senso crítico e visão estratégica. O valor deixa de estar na execução isolada e passa a residir na articulação entre tecnologia e pensamento.
O avanço de plataformas ou novas gerações de modelos de IA generativa reforça essa direção: enquanto a qualidade técnica se torna rapidamente um padrão, o que distingue resultados é a intenção por trás deles. Nesse cenário, a IA não elimina o papel humano, mas o torna mais evidente.
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