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Abezê

Uma das coisas que o cérebro faz com todos os possuidores de cérebro é condicionar a percepção. Eu sei disso porque com isso eu …

Uma das coisas que o cérebro faz com todos os possuidores de cérebro é condicionar a percepção. Eu sei disso porque com isso eu não me conformo, conforme digo sempre. Não me acostumar é o meu costume. 

Em todos e com todos os sentidos, a mente procura – no outro, no horizonte, na escuridão – sinais palpáveis ou impalpáveis de que está bem situada, seja lá que zorra ou que calmaria seja a situação. Rimas no ouvido, simetrias na paisagem, tons sur tons na natureza, tudo nos serve de acomodação mental. Pro desempenho do cocoruto, melhor seria desacomodá-lo sempre. (O inquieto M. C. Escher disse que “nós amamos o caos porque adoramos produzir ordem.”) 

Afora a matemática, a mais decisiva condicionante universal, há zilhões de condicionamentos espalhados pelaí, infiltrados nas cacholas. Tente ignorar a sucessão dia e noite. Pense em esquecer direita e esquerda. Ouse eliminar uma nota musical. Etc.

De todos esses confortos cerebrais – coisas que a gente assimila pra questionar menos – uma das mais bem estofadas é o conceito do abecedário. É um sofazão pro raciocínio: além de bonita, a grafia da palavra é indutora e já ajeita, sonoramente, a seqüência alfabética nos miolos, ad eternum.

Como se ABC fosse o único software compatível com o hardware neurológico. Por que não CBA? Bão, aí já vira sigla de alguma confederação brasileira atlética.

Impressionante: todos os alfabetos ocidentais são ordenados do mesmo modo. Tá certo, é herança da dominação latina e pronto. Talvez por isso não se consiga desconjuntar o alfabeto. O máximo de subversão é imaginar um abezedário. Piadinha graciosa com um simples twist, a antecipação do final. Recorrente na lembrança. 

Lembro como se fosse há 59 anos: foram as aulinhas da minha tia (tia mesmo, irmã mais moça da minha mãe) Lena que implantaram as letras em mim, nos meus quatro anos de idade. Essa tia, que é o que se chama de analfabeta funcional, fez com que eu entrasse para a escola já como leitor, viciado no abecê. Nunca mais me livrei dele. 

Agora, no curso desnaturado da velhice, essa tia desaprende um tanto do pouco que sabia. Aos poucos, nela, vão-se vogais e consoantes, desorganiza-se a decoreba. À custa de alguns sintomas, o sistema da linguagem descondiciona-se. Liberta-se da obrigação de fazer sentido. 

Enquanto isso, eu aqui, escravo da criação, tento desalfabetizar-me. Inútil. Não se pode criar nada tendo em mente um alfalhabeto. 

(Texto originalmente publicado no jornal Extra Classe, em jun/08)

Demorou mas apareceu o efeito da

fixação do Lula com o Pré-Sal: 18 x 12

Trabalho Infantil

Engraçado:

Só começaram a falar em sustentabilidade

agora que tornaram o planeta insustentável.

Consenso dos censos:

quanto mais habitantes e habitações

tem a Terra, mais inabitável ela fica.

 

Entrevista

Ano de eleições.

Mais uma vez os indecisos decidirão

e os inelegíveis se elegerão.

Autor

Fraga

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