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Adios, crase!

Moribundo o trio já estava. Agora, por falência múltipla de funções na língua portuguesa, a Crase, o Trema e o Hífen estão desenganados. Em …

Moribundo o trio já estava. Agora, por falência múltipla de funções na língua portuguesa, a Crase, o Trema e o Hífen estão desenganados. Em 2008 terão desligados os últimos fios de meada que os mantinham vivos na linguagem escrita. Taí, esta é a crônica das mortes anunciadas.

Já passei por 3 reformas do português (ou elas é que se atravessaram no meu caminho expressivo?) e posso dizer que tudo que aprendi de efetivo e proveitoso do idioma foi no terceiro ano primário, isso um pouco depois dos dinossauros serem extintos.

Em 1953 ou 54, só o sr. Al Zheimer pode imprecisar melhor, eu era aluno de uma a escola ali perto da Ponte de Pedra (uns dizem que era o grupo escolar Paula Soares, outros falam no Inácio Montanha; vai ver era Paulo Montanha ou Inácio Soares). Em classes de tampo e assento xifópagos eu atentava para a mais inesquecível das professoras – idiomaticamente falando.

Extraviei o nome dela entre a inconstância de tantas mestras, o que é uma injustiça – ganho a vida com o saber que ela teve a paciência e a bondade de tão bem transmitir. Só lembro dos truques dela para reter regras e mais regras dessa língua que pouco a pouco (mentira, década após década) foi ficando desregrada mais pela ignorância (e má memória) dos usuários do que pelas melhorias propostas pelos estudiosos.

Essa prezada senhora foi quem nos enfiou neurônios abaixo três torturantes apêndices gráficos. Que agora serão incinerados nos livros didáticos que se tornarão obsoletos por detalhes tão pequenos da grafia. Tudo para dar lucro às editoras mais lucrativas do pedaço.

Por outros lados, o da liberdade de expressão e da vitalidade da língua viva, já vão tarde esses mínimos defuntos da tecnicalidade léxica, arautos do terror das sabatinas, ícones do poder dos revisores, bichos papões do aprendizado. Sem esquecer seu papel mais dúbio: são os símbolos das incompatibilidades entre língua falada e a escrita. Alguém aí hifeniza quando verbaliza? Quem aí craseia oralmente? Só o velho trema faz tremer, toda vez que o sagüi não agüenta a ambigüidade de ser argüido por lingüistas sobre a lingüiça antiqüíssima do Anhangüera. Já vão tarde.

Vêm e vão as reformas, ficam os cacoetes. O que se faz com a inutilidade do mais profundamente inculcado na mente? Será a mesma angústia do que se fará com o automatismo da natação, quando o planeta for uma secura só?

Como não nos ensinaram a nada desaprender, sobrará a carga do mecanismo a nos impulsionar erradamente no teclado (até serem modernizados). Quanto – em tempo e encucação – nos custará esse descondicionamento, se é que é possível? Como reagir à sensação de falta, talvez até saudade, diante das novas páginas, subtraídas dos três tremores? E quem nos indeniza por angústias passadas, sofrimentos desnecessários, de tão minúscula opressão? Não existe alívio retroativo, senhores reformadores.

Escrever certo nada mais é que uma convenção entre as partes. Se estão de acordo com um entendimento sumário entre a intenção e a exposição, autor e leitor já não precisam da intermediação oficial. Já é deles a delícia funcional da leitura, desamarrada das raízes. Já se livraram do anacronismo e se atualizaram séculos na comunicação pelo subtendido, se é que me entendem.

Onde cabe crase, trema e hífen na soltura das idéias, na inventividade das narrativas e no coloquial de hoje em dia? O único lugar onde hífen, trema e crase se sentem muito à vontade no Brasil é na Academia Brasileira de Letras, o mausoléu mais pomposo do português.

O funeral será só em 2008. Mas a missa de sétimo dia eu rezei faz uns 50 anos.

Autor

Fraga

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