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Animalíngua

Em longínquos tempos, cavernosos, as palavras eram primitivas, ainda não tinham sido domesticadas. Havia poucas raças de palavras e sua serventia não dava conta …

Em longínquos tempos, cavernosos, as palavras eram primitivas, ainda não tinham sido domesticadas. Havia poucas raças de palavras e sua serventia não dava conta das necessidades de expressão do povo daquela época.

É que as palavras eram como bichos: viviam urrando, rosnando, uivando, ferozes e raivosas, sem controle nenhum, mandíbulas exibindo vocábulos pontiagudos diante de qualquer interlocutor. As palavras mordiam o ar.

Mas a vida não podia continuar assim, selvagem.

Havia eras que o povo queria dizer a que veio mas o máximo de brandura que saía das goelas eram grunhidos guturais. Diálogos viravam carnificina verbal e até monólogos podiam ferir o resmungão.

Algo precisava ser feito, alguém tinha que adestrar o repertório furioso.

As tribos se organizaram e para adestrador apontaram um que falava pouco e nunca soava alterado. O encontro, aliás, só foi bem-sucedido porque ele soube controlar a ferocidade da turba que rugia por palavras suaves.

O homem saiu a campo e reuniu num curral isolado tudo que gritavam e berravam, expressões animalescas, locuções indomáveis. Um alarido assustador que só o homem, bom falante, podia conter.

Em meio às ameaçadoras palavras, havia algumas menos agressivas. Ele as separou, levou-as como pares para uma experiência, e as deixou acasalar oralmente. Não levou muito tempo e as palavras começaram a procriar palavrinhas mansas. E o homem continuou a repetir a mestiçagem, aperfeiçoando novas linhagens da linguagem.

Logo a tribo ganhou famílias de palavras inéditas, que podiam se manifestar calmamente e deram origem às palavras sábias, como as conhecemos. Dessa época surgiram as raças que servem de guarda às outras, como dignidade e responsabilidade.

Outras matilhas de palavras pouco mudaram, continuaram arreganhando os dentes até em conversa: são as que ainda hoje servem para resguardar o espaço de cada um, manter os medos afastados.

As tribos adoraram o palavrório cordial: os termos agora tinham diferentes pelagens e tamanhos, variavam de timbre, e, amestrados de boca em boca, eram capazes de argumentar, explanar e conceituar.

Comparados com as matrizes, eram bichos razoáveis, nem pareciam descendentes das sílabas estúpidas. E os discípulos do homem percorriam outros lugares, tornando as palavras coloquiais, que geravam outras delicadas. Um deles já as treinava para filosofar!

Foi um bom trabalho, a poesia é a prova. Mas a genética é incontrolável.

A mordacidade continua.

A esperança é a última que morre,

e a primeira a entrar em pânico

com os sismógrafos.

Em qualquer uso do elemento,

a situação mais crítica para o urânio

enriquecido é ser exposto ao bom

senso empobrecido.

Angústia nipônica:

nunca mais poder olhar

o mar da mesma maneira.

TUITADAS DA SEMANA

Não entendo a esfinge. Ela tem linguagem cifrada.

Nas ruas e estradas, acelerados e celerados

muitas vezes são os mesmos.

Fome de saber é fácil resolver: ligue pra casa

e pergunte o que tem pra jantar.

Tudo que se veste precisa ser P, M, G ou XL –

menos as carapuças.

O homem é o único animal que

tem ´quadrilha´ como seu coletivo.

Pelo seu relevante papel, o consumidor assegurou

o devido lugar na sociedade: entre o Procon e o Serasa.

Progresso é isso que, através dos tempos,

produz escombros cada vez melhores.

Dá pra esganar um ou dois o tempo todo.

Dá pra esganar alguns algum tempo. Não dá pra

esganar todos o tempo todo – aí já vira serial killer.

Tudo tem um lado bom, disse o geômetra

superestimando um poliedro.

Nunca adianta estar pronto pro que der e vier

– ele vem assim mesmo.

Hoje em dia, o mais impressionante é a quantidade

de gente facilmente impressionável.

Nas bibliotecas públicas, leitores aparecem

em terceiro lugar no interesse por livros.

Em primeiro e segundo, cupins e traças.

No Brasil, quando a vítima escapa do agressor,

do assaltante, do atropelador ou do homicida,

não escapa do banco dos réus.

Ser feliz às nossas próprias custas não custa nada.

O MINISTÉRIO DO HUMOR ADVERTE:

São crimes inafiançáveis desgraçar a ironia,

torturar o implícito, estuprar as entrelinhas.

Ninguém sabe como vai ser o fim do mundo,

mas uma coisa é certa: será o maior sucesso no youtube.

Ao dormir, estamos à mercê de tudo,

sobretudo dessa expressão.

Antes do homem surgir, todas

as catástrofes eram naturais.

Grandes lições geológicas:

Não se constroem civilizações

sobre placas tectônicas.

Ameaça nuclear é fissão,

segurança nuclear é ficção.

Autor

Fraga

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