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Arghs no Margs

O mestre Millôr Fernandes definiu definitivamente: Arte é intriga. Se você entra num ambiente expositivo – galeria, museu, bienal – e sai de lá …

O mestre Millôr Fernandes definiu definitivamente: Arte é intriga. Se você entra num ambiente expositivo – galeria, museu, bienal – e sai de lá intrigado, valeu a ida, palmas pro artista. 

Numa época em que “arte é tudo aquilo que você quiser chamar de arte”, nada mais intrigante que uma passada no Margs, ali na Praça da Alfândega. Lá, em meio à mostra coletiva Economia da Montagem, um núcleo perturbador: Reduções do Sentido. Perturbação que nada tem a ver com o admirável acervo original, o susto é em paralelo. 

A curadoria decidiu que cabia reunir, junto de pinturas, gravuras e desenhos de respeitáveis artistas, um conjunto de artefatos apreendidos no Presídio Central de Porto Alegre (coleção de um doutor da Academia de Polícia). 

O curador parece querer nos fazer olhar a série de mortais estoques, revólveres, trabucos, granadas e outras armas sob um ângulo, digamos, estético. Como se tais objetos fossem fruição criativa, evidências de algum talento artístico; como se esse perigoso artesanato indicasse novos Bispo do Rosário a cumprir pena; enfim, como se a função desses instrumentos não fosse a violência. 

A mim, essa reunião espanta por sombrios motivos: pelo insólito contraste com as obras expostas; pela falta de justificativa da inclusão do armamento na principal casa de artes do RS; pela subentendida valorização dos artefatos, talvez sob o prisma do design. 

O que sobra é a sensação de um incômodo equívoco conceitual: o reconhecimento do potencial criador dos criminosos, a partir da técnica artesanal no cárcere. E para acentuar tal equívoco, uma pérola de humor negro em meio à montagem: a colocação, lado a lado, de um quadro de Iberê Camargo, A Mulata(1944), e um revólver artesanal. Logo com Iberê, que teve como seu pior episódio biográfico a morte a tiros de um homem no Rio, em 1980. 

O que espanta, porém, não é expor os artefatos – é a ausência de critérios para isso. Merecem, sim, alguma evidência, pois são o registro da monstruosidade reinante nessa vergonha social chamada Presídio Central. Uma exposição com tal teor, centrada na capacidade de produzir ferramentas destrutivas, feita em ambiente e enfoque adequados, serviria a uma reflexão singular a respeito da sobrevivência entre as grades. 

Mas o que mais me espanta é que quase ninguém se espanta com a truculência exposta no Margs.

 

Pelo nível geral dos candidatos, 

um resultado já se sabe:

a maioria vai votar em bronco.

Autor

Fraga

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