Colunas

Coincidências coincidentes

Esperou sentado durante horas num móvel de madeira onde cabiam várias pessoas e não foi atendido pelo sujeito que prometeu-lhe uma infusão de ervas. …

Esperou sentado durante horas num móvel de madeira onde cabiam várias pessoas e não foi atendido pelo sujeito que prometeu-lhe uma infusão de ervas. Tomou um chá de banco.

Pediu transferência no quartel, manifestando seu interesse por atividade mais sedentária na guarnição, porém teve sua solicitação indeferida. Marchou.

Estava a fim de lançar um novo ritmo e o líder da turma o impediu, impondo o compasso do passado que tanto detestava. Dançou conforme a música.

Seus argumentos a respeito da validade dos métodos antigos de educação `base de castigos foram inferiores ao do velho professor. Deu a mão à palmatória.

Ao jurar para o companheiro de viagem que não retornaria ao ponto de partida daquela peregrinação, não sabia que a estrada tinha fim. Voltou atrás.

Afirmou ser bom em metáforas até mesmo montado em eqüinos sem suspeitar que as figuras de linguagem espantariam o animal. Caiu do cavalo.

Se surpreendeu na hora em que pediu dinheiro emprestado para comprar uma pulseira nova pro seu cebolão e o agiota exigiu o relógio em garantia. Ficou empenhado.

Acho que não perderia a calma ao disputar com uma criança habilidosa aquele joguinho de tirar um pauzinho sem mexer nos demais. Envaretou.

Imaginou, para pôr fim à sua castidade, obter, de graça, todos os prazeres que uma prostituta podia lhe proporcionar. Pagou os pecados.

Foi um susto quando o otorrinolaringologista lhe disse que a deficiência funcional das suas glândulas salivares era definitiva. Engoliu em seco.

Etc.

Lilian Bem David (1955-2006)

Viver é manter laços. Morrer é deixar uma das pontas soltas no ar. É como estão, agora, todos aqueles que conviveram com a Lilian Bem David. É uma perda precoce – como todas as perdas, a qualquer tempo. A Lilian era uma flor de pessoa e estava na flor da idade. Me refiro àquela idade em que o calendário não sugere a quebra de expectativas. Tanto a fazer e muitos afazeres foram a pauta e a força motriz da Lilian, jornalista experiente e, lá no início do nosso conhecimento, a primeira cartunista gaúcha. Era 1974 e eu e o Edgar Vasques editamos um suplemento de humor, o Quadrão, na extinta Folha da Manhã, da CJCJ. A Lilian apareceu com uma tira, o Egus, e nós nos entusiasmamos duplamente – por ser boa criação e por vir de um talento feminino, raridade na área do humor. O Quadrão durou o que durou, ano e pouco, mas a Lilian permaneceu entre nós, naquilo que ficou como o boom do humor gaúcho. Tanta capacidade tinha a menina que ela integrou a equipe que impulsionava o Coojornal, um marco na história do jornalismo nacional. Lá a Lilian foi editora de arte e ilustradora e esteve à frente de incontáveis projetos editoriais. Logo amadureceu e foi experimentar a redação. Nisso a Lilian já se diferenciava e se tornou, por empenho e vocação, a unanimidade com que será lembrada: a habilidade excepcional tanto com a palavra quanto com as artes gráficas. Quer dizer, uma senhora editora de conteúdo e visual. O que não é comum em qualquer veículo ou mercado. Por isso a Lilian evoluiu e conquistou espaços por jornais e revistas de várias regiões do país. Assim se passaram 32 anos de atividades, com um inconfundível estilo de atuação: sensível, séria, respeitável e responsável, altamente motivada e motivadora, sempre profissionalmente aplicada e com uma invejável disposição criadora. Seu humor, ao contrário dos cartunistas e jornalistas que a rodeavam no ambiente de trabalho, não era desbragado. Reservada e até tímida, ela adorava sutilezas. Se comportava como a irmã meio suave, meio risonha, que muitos de nós gostaríamos de ter. Nós a elegemos, sem eleição e sem nenhum desmerecimento à sua figura, a nossa mascote. Entusiasmada, leve, bem humorada, e disciplinada, versátil, competente. Acima de tudo, incansavelmente otimista. Enfim, nenhum sinal de que a admiração de todos nós seria um dia afetada pela probabilidade estatística de uma injusta enfermidade, como o são todas as enfermidades. Há mil maneiras de tentar definir laços e alguns não pressupõem amarras. São mais como ligaduras, espontâneas e delicadas, que nos aproximam e cativam, sem pressa nem pressão. A ligação da Lilian com as pessoas era assim, através de filigranas afetivas. A saudade vem daí.

Ambigramatices

Alberto Portacio é um talentoso ambigramista colombiano cercado de Oceano Atlântico por todos os lados: ele vive em Barranquilla, Colômbia. Sua ponte eletrônica com o mundo é através dos ambigramas. Com um estilo marcante, ele conseguiu a proeza de configurar quase um alfabeto, que resulta em ótimas concepções. Assim Alberto Portacio se mantém em contato com outros artistas, fazendo e recebendo homenagens ambigramáticas. Como a que fez agora para mim: nada mais nada menos que um conjunto de 9 ambigramas, de uma só vez! A galeria é tão grande que resolvi exibir apenas uma amostra e convidar você pra ver tudo direto no site dele, aqui. Más una vez, muchas gracias, Alberto Portacio!

Autor

Fraga

Compartilhar:

*As discussões estão sujeitas à moderação. Antes de comentar, leia nossa Política Editorial

ÚLTIMAS NOTÍCIAS

Relacionados

CADASTRE-SE
Captcha obrigatório
Seu e-mail foi cadastrado com sucesso!

Aviso: se você optou por parar de receber nossos e-mails e deseja voltar à nossa lista, ou está com dificuldades para se cadastrar, entre em contato com a Redação pelo formulário Fale Conosco e informe seu nome e o e-mail que deseja incluir.