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Constatações constantes

O calo alheio sempre lateja menos que o nosso. A envergadura de um boeing é mais fácil de avaliar que a de um homem. …

O calo alheio sempre lateja menos que o nosso. A envergadura de um boeing é mais fácil de avaliar que a de um homem. Os desvalidos subiram na vida, da sarjeta para a marquise. O colírio de groselha deixa a realidade menos tenebrosa. A saudade mata a gente morena, a gente branca, a gente vermelha e a gente negra. O capacho espera que nem todos entrem de sola. A roupa escura encarde tanto quanto a clara. Os degraus formam o DNA das escadas e escadarias. As garças das ilhas do Guaíba têm pena das garças da Redenção e do Parcão. O bodoque, o estilingue e a funda é que davam sentido às forquilhas. O rubor, aos poucos, some do rosto das pessoas até desaparecer da face da Terra. A receita médica faz de cada farmacêutico um Champollion. A proibição de aparelhos sonoros no transporte coletivo desconhece a invenção do mp3. O conforto religioso nos hospitais nem sempre é confortante. O caniço é um bambu com vocação esportiva. As fraldas descartáveis descartam quem não é bebê e ancião. O vapor de mercúrio ilumina porque sua febre vai além dos 44 graus. A régua francesa nem quer saber da distância mais curta entre dois pontos. O luar do sertão, esse sim deixa a noite enluarada. O parquê, como material decorativo, confiava no seu taco. As rugas são vitalícias. O sonho acabou – os maus confeiteiros são os culpados. Etc.

… a diferença entre os jovens de 68 e os de hoje é a seguinte: enquanto aqueles estavam inseridos no seu tempo, estes estão apenas envolvidos pela atualidade. E a diferença entre os velhos de 40 anos atrás e os de hoje, está na cara: agora eles envilecem mais cedo.

“Arte é intriga.” (Millôr Fernandes)

Diante de esculturas de Auguste Rodin:
O Pensador não me leva à introspecção. O que impressiona é a convicção dele: não renova seus pensamentos desde1880! Já O Beijo arrebata: a impressão é que o mármore ganhou mucosas. E na mão pousada na anca há mais leveza que num gesto humano.

Diante da pintura de Edward Hopper e de Norman Rockwell:
Vistas lado a lado, as cenas e os personagens induzem a um hipotético intercâmbio: os otimistas e eufóricos de um animariam os ambientes do outro? E os melancólicos e isolacionistas daquele, contaminariam os cenários deste?

Diante de Nu Descendo a Escada de Marcel Duchamp:
No cubismo, a fragmentação do ponto de vista é tudo. Como composição, o quadro deleita a percepção. Irresistível é não pensar num tombo.

Diante dos móbiles de Alexander Calder:
Fazer flutuar o mais pesado que o ar envolve as leis da física, ponto. Mas a imaterialização do aço vai além, dois pontos. O que o escultor equacionou foi a brisa, ponto de exclamação.

Diante dos retratos de Amedeo Modigliani:
Demasiado esguias dos ombros para cima, as figuras tendem a confundir os anais da endocrinologia. Nunca as disfunções das glândulas tireóide e hipófise influíram tanto na arte.

Diante dos girassóis de Vincent Van Gogh:
Se a natureza não dá graça a certas flores, o talento compensa. Para quem avalia quadros pelo valor de mercado, pigmentos amarelos podem chegar a 36 milhões de dólares. O que ainda não se viu foi hectares de canola em flor inspirar pintor nenhum. Nem leilão de quadro de natureza morta com soja.

Autor

Fraga

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