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Crônica escandalosa

Atolados no excesso de escândalos cabe perguntar, pela escandalonésima vez: tá todo mundo cada vez mais escandalizado ou cada vez menos? Teríamos que fazer …

Atolados no excesso de escândalos cabe perguntar, pela escandalonésima vez: tá todo mundo cada vez mais escandalizado ou cada vez menos?

Teríamos que fazer uma pesquisa para saber… Peraí, Fraga: com pesquisas já houve escândalos de todo tipo: pesquisas fantasmas, que não foram pesquisadas mas foram pagas com o dinheiro do contribuinte; pesquisas com pesquisadores pesquisando a si mesmo e falseando os números; pesquisas inúteis, só para desviar verbas de pesquisa; escândalos com duvidosos resultados de pesquisas, e que nas investigações não resultaram em nada! Deixa pra lá, Fraga.

Atualmente escandaliza, desde a quantidade de páginas dedicadas aos escândalos, ou a escandalosa indiferença da imprensa com certos escândalos.

Há escândalos de todas as espécies, sobretudo em espécie.

Urge classificar os escândalos, para analisar e julgar por categorias. Inclusive escândalos com gente sem categoria, que é o rebaixamento de personas categorizadas. Em matéria de escândalos, temos que ser categóricos!

Há os escândalos que podem ser listados por pêlos: os cabeludos, os peludos, os bigodudos e, obóvio, os escândalos nus em pêlo. (Às vezes a penugem nem deixa ver se são imorais ou antiéticos.)

Escândalos em papel impresso: diplomas falsos, ações falsificadas, malas de papel moeda circulando por fora da circulação, licitações ilícitas, contratos por baixo dos panos, panos quentes por cima de documentos frios, promissoras promissórias promíscuas. Sem sisquecer dos mais escandalosos escândalos com papel: os sumiços dos dossiês sobre escândalos sobre papéis!

Inspiradas pela hidrografia brasileira, temos escândalos aos borbotões, em cascata, de enxurradas, por onde correm rios de dinheiro, drenados dos cofres públicos. Deságuam em contas escandalosas, que ao serem rastreadas evaporam escandalosamente.

E convém arrolar os escândalos por decibéis, desde os gritantes até os sussurrantes, dá pra escandalizar tanto na voz ativa como na passiva. Mas nem só pelo barulho um escândalo chama a atenção: se chegam aos tribunais, quase todos entram mudos e saem calados. E para escandalizar mais a nação, basta lembrar a suprema conivência silenciosa entre juízes que julgam juízes.

Enfim, escândalos sem fim, nem o leitor aguenta cronista ocupado com isso. Precisamos é de um escandalômetro, um aparelho pra dar a medida dos desmedidos escândalos. Ele faria a leitura ética da… Peraí de novo, Fraga: não iria funcionar. No Brasil, depois de duas ou três semanas, qualquer escândalo vira ex-cândalo.

A Terra, esse paraíso de onde um dia a nossa espécie será

expulsa por ela mesma, provê o básico dos quatro A (ar,  água,

alimento, abrigo). A lista de maravilhas desse paraíso perdido só

cabe num DVD imaginário. Se houvesse alguma chance de sentir

algo depois que se para de sentir tudo, escolheria entre essas:

A Via-Láctea, vista do caminho para a serra.

*

Brisa leve, com paina e cigarra no ar.

*

Ninhos de beija-flor, pendurados um no outro,

sob um alpendre.

*

Cheiro de livro antigo, de lápis novo e de criança suada.

*

Mordiscar capim por falta do que fazer.

*

Se encantar com uma canção do passado remoto,

recém descoberta a dois.

Etc.

Autor

Fraga

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