Hoje vou experimentar escrever nada que se aproveite.
Já estou na segunda linha e, somando com a anterior, lá vão dezenas de dígitos que não querem dizer absolutamente nada.
Então, até aqui, também não faz nenhum sentido ler.
Mas aí basta colocar um “mas aí” e a coisa parece mudar de figura.
Porém, mudou apenas o parágrafo.
Não escrever nada é quase tão difícil quanto escrever algo. A falta de intenção seria um propósito? Ou, vários despropósitos seguidos perfazem um conteúdo?
Perguntar por perguntar também acrescenta? E se se fizer isso seguidamente?
Insistentemente? E se se parar de perguntar, ganha-se um objetivo?
Não, já decidi que não irei consubstanciar este bloco de texto.
Talvez seja a negação da afirmação autoral. Sei lá.
Que precisa apenas de algumas linhas subseqüentes para alcançar ou ampliar a inconseqüência até aqui tão bem constituída.
Relendo – fiz isso; você, não sei – não constato consistência. Alívio. Se é
trabalhoso manter a coerência num texto que pretende a coerência imagine
num que a dispense.
Então, tão bem-sucedido, ouso continuar. Com o quê, Fraga?
A não dizer coisa com coisa. Porém com toda a maestria possível. Fluência.
Construções claras e sucintas. Legibilidade.
E se eu não me descuidar nas últimas frases e não enfiar nenhum argumento válido, terei obtido, depois desse longo vazio, certa credibilidade.
Cabendo uma pausa, pus.
Agora que você me acompanhou nessa divagação inútil e desconforme,
vá até o fim.
Pois acabou.
A nenhuma conclusão cheguei, você não seguiu meu raciocínio, nada
de memorável ficou registrado. Nem posso dizer que é um total absurdo,
porque vou deixar incompleto.
Esse tipo de criação, em que as pessoas são levadas a não-ler lendo,
tem nome. É inominável.
| Graças ao mensalão, finalmente nossas penintenciárias se tornaram democráticas. |
| No Brasil, existem centenas de novas formas de empreendedorismo. O arrastão é só a mais recente. |
| O desemprego recua. Mas não tanto quanto os desempregados já deram pra trás. |

| O pior sinal dos tempos é o tempo que se leva pra conseguir sinal. |
| Acidentes acontecem, dizia o estatístico atrás do airbag inflado fora da hora. |
| O barato sai caro porque nenhum traficante se contenta com lucro menor. |
| Sou do tempo em que as pessoas falavam “vá com Deus”, e Ele ia junto. |

| Suicídio: acordo de extrema cumplicidade entre o assassino e a vítima. |

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