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Desurbanidades

Uma cidade é um perímetro acumulador de problemas cercado pela insuficiência de soluções por todos os lados. Mas, pergunta se alguém quer outro endereço. …

Uma cidade é um perímetro acumulador de problemas cercado pela insuficiência de soluções por todos os lados. Mas, pergunta se alguém quer outro endereço. O êxodo rural, termômetro das febres sociais no campo, que responda.

Administrar uma cidade deve ser tão fácil quanto dirigir um hospício. A diferença é que num manicômio há menos loucos, e na cidade há muito mais e estão todos à solta. Outro agravante é a moderna cidadania, uma forma de loucura ainda não catalogada. E os administradores de hoje em dia são outros doidos, eleitos apesar da doidice típica – vulgo politicagem.

Nem sempre foi assim, e os álbuns de fotos antigas provocam uma
nostalgia esquisita – pelo bem-bom que não vivemos e por uma tranqüilidade que jamais teremos acesso de novo. Suspiro.

Pelos vestígios de urbanidade e traços de civilidade de outrora,
ainda à vista em cidades como Porto Alegre – plano diretor sensato, praças bem localizadas e melhor desenhadas, arborização abundante, via pública transitável, saneamento mais que básico, gabaritos gabaritados, paisagens com paisagismo etc – surge uma inevitável indagação: onde foi parar essa capacidade de projetar espaços, essa disposição de amenizar a aglomeração humana, essa dedicação ao bem comum?

Os homens públicos pareciam incansáveis, mostravam talentos nas
funções e correspondiam, mais que à confiança pelos votos depositados, a uma fé intrínseca ao cargo. Onde andam esses abnegados? Por que nossa sociedade ficou estéril e não mais pariu urbanistas desse quilate?

Hoje, em qualquer cidade, prevalece o carreirismo, os prefeituráveis se tornam imediatamente inaturáveis ao assumir suas tarefas. Seu instrumento de trabalho mais comum é a barriga, a empurrar a agenda municipal para a próxima gestão, mesmo que seja ele o gestor de amanhã, reeleito.

Administrar cidades, atualmente, é assumir uma lenga-lenga de adiamentos, prorrogações, irrealizações. Em contraste com o administrador de antigamente, não se vê propostas práticas, soluções criativas, a promoção das possibilidades. Argh.

Nem sempre foi assim, e os nomes de logradouros estão aí para referendar os acertos de eleições no passado, inclusive com os casos de homenagens injustas: ruas estreitas, quase becos no centro, denominadas para lembrar prefeitos memoráveis, como José Montaury, que teve seis mandatos e morreu pobre. Enquanto outros, não tão meritórios e até uns incapazes, viram perimetrais e avenidas moderníssimas.

Dá vontade de votar nos mortos. Os cemitérios estão cheios de ilustres ex-prefeitos, cujas administrações exemplares fazem jus à inscrição lapidar: sentimos saudades.

Militar que, sozinho, vale por uma tropa, inclusive os cavalos.
Estrategista inovador, usa a retaguarda para atacar pelos flancos frontais.
Por sua formação desumanista, galgou carreira veloz como um galgo. Orgulha-se de sua ascendência, que parece remontar ao elo perdido. Um dos grandes pilares da prepotência atual, considera que a
truculência já não é o que era, anda muito delicada ultimamente.
Diante dos conflitos sociais e em meio aos embates urbanos,
faz a farda ser um fardo para os subordinados.
Para ele, a hierarquia é fundamental, desde que os superiores
não tenham tanta superioridade, liberando os inferiores para ter
toda a inferioridade possível.
No comando, introduziu o conceito de ordens desordenadas.
Sua tática é sua justificativa de ação: não tem tolerância com
manifestantes porque são todos uns intoleráveis.
Com algum laivo poético, diz que caserna e baderna rimam
mas não têm solução.
Admite que, se soldados e civis não tivessem tantos joelhos
e cotovelos, haveria muito menos choques nas ruas.
Convicto, se mostra não favorável ao uso da inteligência bruta,
ao contrário da força bruta.
Enfim, é perfil para ser olhado de lado.

Autor

Fraga

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