
Nos últimos dias de dezembro recebi do amigo Antônio Goulart um livro que ele havia prometido e eu até já havia esquecido da oferta. Com dedicatória e tudo, ganhei Doces Epigramas, de Carlos Saldanha Legendre. De aparência modesta e pouco mais de 70 páginas, a obra contém algumas preciosidades na forma concisa de 268 epigramas, que vem a calhar para quem, como eu, comete também suas tiradas, batizadas de Reflexões e publicadas esporadicamente no Facebook.
Carlos Saldanha Legendre, 91 anos, formado em Direito, exerceu a advocacia, ingressou na magistratura e aposentou-se como desembargador. Autor de mais de uma dezena de livros de poesia, com outros no prelo ou em preparação, sua obra mereceu elogios de expoentes como Carlos Nejar, Cassiano Ricardo, Antônio Houaiss e Luiz Coronel. Aí vai uma provinha das doces epigramas, alguns nem tão doces, desse poeta que passei a admirar.
– No cemitério, qualquer morada tem vista para o Além.
– Na parada cardíaca, a morte se movimenta.
– O infiel é sempre fiel às próprias pulsões.
– Nunca pergunte a um burro o que ele pensa a nosso respeito, a fim de evitar constrangimentos.
– Ter crédito com um cão raivoso é sempre um bom negócio,
– A paixão é o acelerador do desassossego.
– A liberdade não pede asilo à ditadura.
– O bom amante é todo aquele que não economiza talento a serviço da volúpia,
– Era um parlamentar pra lamentar.
– Onde mais se poderia realizar sessão de autógrafos de, póstumas, senão em centro espírita.
– O lugar era tão sujo que o sol passava na ponta dos pés.
– Aquela sociedade conjugal foi a falência quando o marido trocou a ação preferencial pela ordinária,
– De uma vizinha boa, até queima de incenso nos agrada,
– Aquele padeiro deram-lhe o apelido de diabo por ser tão ruim o pão que ele amassava.
– Além da fé, o que move montanha é uma boa retroescavadeira.
– O efêmero é a queima do estoque do perene.
Valeu pelo presente, Goulart.


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