Por um lado, o gigante acordou; por outro, continua empacado.
Tem tudo a ver com os gabinetes, aquelas saletas onde a urgência se torna obsoleta.
Sim, falamos dos gabinetes oficiais, aqueles mezzo governamentais, mezzo ornamentais, por todos os espaços nacionais: gabinetes federais, estaduais, municipais, capitais, regionais e outros que tais. Não fossem tantos ainda seriam demais.
Os gabinetes são tentáculos ministeriais, enroscados em secretarias educacionais, sociais e culturais, industriais e comerciais, instalados e lotados também nas estatais. Nunca saem de moda, são sempre in: incontáveis, incontornáveis, incontestáveis e, bem pior, incontroláveis.
A função básica dos gabinetes: travar o Brasil. E se quisessem destravar o país, podem apostar – para isso seriam criados novos e monstruosos gabinetes.
Fora dos gabinetes, o impossível acontece. Dentro deles, nem o possível ocorre.
Estranhos, os gabinetes. Neles não há lesmas nem caracóis, a lerdeza reinante chega a ser irritante para esses moluscos. Sua irritação é tão intensa que em vez de subir pelas paredes saem porta fora. É que caracóis e lesmas têm seu ritmo, os gabinetes nem isso.
Indestrutíveis, os gabinetes são como bunkers e casamatas da burocracia. É onde o planejamento começa e jamais termina. O adiamento move os ponteiros. Os prazos são prorrogados até o decurso fatal. Por isso as obras não andam, desandam.
Por isso, mais isso:
Antes de entupir as vias, os congestionamentos são estrategicamente concebidos nos gabinetes. Mãos e contramãos são embaralhadas, sinais são complicados, plano-diretor é feito labirinto, viadutos viram estacionamentos. Todo um expediente diário para asfixiar o fluxo viário.
Para encher salas de espera de desespero, à espera da saúde, confiemos nos gabinetes. Agora hospitais públicos contam com mais cargos de confiança que funções clínicas. Atopetados de pacientes, a impaciência hospitalar nunca chega aos gabinetes, tão auto-imunes às distorções que projetam.
Graças aos gabinetes, a infra e a estrutura se divorciaram, mal se falam.
E rale-se o fundamental: a prioridade da gestão é desviar os orçamentos para o monumental.
O negócio dos gabinetes é atrapalhar negócios, a ocupação principal é prover o caos pela estagnação, enfim, carimbar a inércia administrativa em todos os setores.
Nos gabinetes públicos as decisões hibernam, enquanto as indecisões procriam embaraços, obstáculos, ressalvas, indeferimentos, negativas. Atrasar, verbo tramitativo indireto.
O gigante acordou. E os gabinetes bocejam.
Agora harmonizam cerveja com queijo, com chocolate, com sobremesa. Quero ver é harmonizar cerveja com carro.
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O feriado cai num sábado, que tropeça num protesto, que escorrega nas ruas. Mas tudo indica que o 7 de setembro vai acabar em 8 de setembro.
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Nada de novo sob o sol, a não ser os desabrigados que estavam ao abrigo dos diques.
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Armando Coelho Borges (1937-2013)
Impossível admirar e se afeiçoar a bilhões de terráqueos. O jeito é ser seletivo. Tomar cafezinho só com quem se preza, pra não desvalorizar a cafeína. Dar ouvidos só à conversa dos que nos cativam – o único modo do tempo não passar. Editar antologia de humor apenas com queridos e talentosos, ou a coisa pode nem vir a ser antológica. Foi assim que o Armando Coelho Borges entrou na minha vida: ele elevou o nível inicial do volume QI 14, coletânea cheia de engraçadinhos do sul, nos idos de 75. Por conta dos lançamentos do livro, íamos a várias cidades, e em Pelotas o anfitrião só podia ser o pelotense Armando. Durante a viagem nos fartamos de histórias deliciosas; na estadia, novas histórias e fartura de comes e bebes. porque não havia cicerone melhor que o Armando; naquele verão fomos brindados com generosas doses da sua típica gentileza. A cada oportunidade, a chance de ser conduzido pela voz do Armando a épocas, lugares e ambientes onde civilidade e sofisticação eram regras, não exceções. Ao longo das décadas, privei dele bem menos do que gostaria, muito por conta da quilometragem entre SP/RS, ou RJ/SP. Nas poucas ocasiões a dois, a sensação era de estar na divertida companhia de um inglês, e ele tendo que se contentar com um acompanhante pouco polido ou ilustrado. Guardo do Armando as melhores impressões, sobretudo no que deixou impresso: cronista refinado, texto o tempo todo saboroso e espirituoso. Ler o Armando é como passear ao lado de um bon vivant, um flâneur em meio a referências cults. A chance de relembrar a vibração que ele sentia pela vida está aqui, em mais de 80 crônicas. Elas o trazem para perto de seus admiradores ou o apresentam a quem não teve o privilégio do convívio.
Éramos 14, agora somos 11 (os inesquecíveis Edson Kozminski e Ronaldo Westermann também já se foram). Embora ainda haja muito riso pela frente, as saudades se empilham. Para mim, o Armando foi o mais próximo que cheguei de conviver com um cavalheiro.

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