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Excomungados e abençoados

Nem todo mundo parece ter percebido claramente a real intenção da Igreja Católica neste episódio de excomunhão da menina pernambucana de 9 anos, grávida …

Nem todo mundo parece ter percebido claramente a real intenção da Igreja Católica neste episódio de excomunhão da menina pernambucana de 9 anos, grávida de gêmeos em consequência de estupro. Foram interpretar o fato depressa demais e instaurou-se a polêmica. Agora, para preservar a imagem da Santa Sé, tenho eu que explicar aos homens de má vontade. 

O negócio é o seguinte: há séculos a Igreja vem acumulando gratidão aos estupradores. Afinal, eles têm sido fiéis emissários da vontade divina e promovem, na prática, um ensinamento básico, aquele que garante o aumento contínuo do rebanho cristão: o crescei e multiplicai-vos. Aliás, para lotar o quanto antes as paróquias, eles nem perdem tempo com o crescei. De resto, são rapazes e homens maduros que agem no seio da família, que a mantêm unida em torno dos mais sagrados sentimentos religiosos.  

Tão grata é a Igreja a esses benfeitores do cristianismo que se sente obrigada a reagir coerentemente diante dos que acusam os estupradores e também frente a iminência de um aborto dessa natureza. Por isso o Arcebispo de Olinda e Recife saiu em defesa de quem mais merecia compreensão, o estuprador. Afinal, esse cabra põe os seus instintos bestiais a serviço do culto a Deus. Por isso o arcebispo excomungou as maiores ameaças à fé: a desnaturada mãe da menina e aqueles médicos incréus. 

Além disso, para ser justa com o estuprador, a Igreja salienta um agravante no caso: essa menina tem nove anos mas com um corpinho de onze. Para piorar, estava ovulando na hora e no local errados. É uma tentação precoce, sabe-se lá se aí não se esconde uma provocação do demo. 

Em face dos acontecimenos e da reação da opinião pública, a Igreja agora já providencia dois procedimentos canônicos: a beatificação dos estupradores e a escolha de um santo protetor desses penitentes exemplares, que podem até não rezar mas ajoelham e fazem as menininhas ajoelharem também. 

Quanto a esse crime hediondo, o aborto, há que ressaltar: se a Virgem Maria tivesse feito um aborto por causa da Anunciação (um estupro indolor e sem coação), a humanidade não ganharia o seu Salvador.  

Enfim, para o Vaticano, é preferível abençoar os estupradores e excomungar as abortadoras porque a Vida tem que ser respeitada, mesmo que venha do incesto ou de um ataque brutal. É natural que assim seja, ao contrário das abomináveis relações homossexuais, outro crime gravíssimo, que nem se compara a um crime brando como o estupro.  

Com este esclarecimento, espera-se que deixem o pobre estuprador em paz, com o kit recebido do Papa Ranzinger: uma caixa de vinho missal e um garrafão de água benta para sua purificação espiritual. Vá que a repercussão negativa afete sua masculinidade e impeça novos estupros.  

Segundo a ciência, chega uma hora na vida – aquela hora em que a gente começa a usar essa expressão – que o metabolismo começa a racionar os combustíveis vitais. As glândulas recebem telefonemas das farmácias dizendo que podem resolver as tarefas por elas, e elas se aposentam aqui e ali no organismo. O que a ciência omite é que, a partir de uma idade, o próprio corpo, para se adaptar à ordem natural das coisas (vulgo degeneração), passa a processar outras substâncias desumanas. Vamos ao delivery interno: primeiro, se é tomado por irritagina e implicancina, que afetam a sociabilidade. Ainda há chance de reagir, se não aparecer o desconfiogon. Aí é melhor evitar as multidões. Para produzir a apatia, o desmotivol e a conformina entram a mil na corrente sanguínea, paralisando pernas e braços, que vão agir em combinação com adiasina, e você deixa tudo pra depois. É uma situação propícia para acumulação de altos teores de comodismônio e sofatrona, que fixam o sujeito da porta pra dentro. Com o tempo, o cérebro cede e de lá jorram fluidos amargurogênicos, com efeitos azedumetróficos. Então, assim condicionados, dos testículos e dos ovários brota a desinteresexona, com níveis mais elevados ao anoitecer e picos justamente na posição horizontal. Já sem compensações, o corpo sucumbe e é inevitável uma overdose de morticidrina. Quer dizer, a endocrinologia está devendo um comentário sobre esse quadro.

Autor

Fraga

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