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Fórum das Palavras

A situação mundial das palavras não parece mas é alarmante. O empobrecimento e a redução dos vocabulários, por um lado, e o imperialismo do …

A situação mundial das palavras não parece mas é alarmante.

O empobrecimento e a redução dos vocabulários, por um lado, e o imperialismo do economês e a elitização dos jargões, por outro, obrigaram a mobilização de palavras. Conscientes da sobrevivência precária numa era visual, elas querem defender territórios e garantir os direitos de circulação em todas as camadas sociais. Daí o Palavrórium, o primeiro fórum da palavra.

Dada a experiência de Porto Alegre com os fóruns mundiais, as palavras decidiram realizar aqui essa decisiva discussão internacional. Pois aqui os idiomas sempre se sentiram à vontade em meio ao gaúchês, as línguas se entreveraram numa boa para questionar o mundo. Agora, vão se ocupar das suas próprias condições de expressão para formular novos caminhos boca afora, impressos adentro.

O programa é imenso. Vai desde as imposições na impostação de voz até a ascensão das gírias de minorias à dicionarização imediata. Questões como o favelamento de palavras através da aglutinação de sílabas, que afetam a compreensão de frases inteiras, e também o avanço crescente do estrangeirismo sobre o linguajar regional, que descaracteriza até nacionalidades, tudo efervescerá em debates. Não vai ser fácil organizar as propostas, quando se sabe que há palavras participantes que representam, justamente, essas ameaças.

A maior polêmica é a vinda de delegações das línguas dominantes, um G8 verbal. Seu interesse como grupo, pra não dizer ganância, é absorver espaços no próprio evento, e daí a diminuição das mesas de debates com temas menores, como sotaques em desaparecimento, pronúncia analfabeta etc.

Uma das atrações é a comunicação, em si, no encontro de locuções idiomáticas de diversos países, que se sentem eternamente prejudicadas em versões escritas e, sobretudo, nas traduções simultâneas. Como irão encaminhar suas proposições? Afinal, para se fazer entender, elas dependerão dos tais serviços que irão criticar!

Assunto conflitante é o da sintaxe de internet. Reflexo da grande revolta da linguagem-padrão, que sofre mutilações ortográficas e gramaticais diárias em celulares e msn, essa pauta tem tudo para elevar os ânimos. Pior ainda se for aceita a participação de novos meios.

Já a unificação do português, uma suspeita injunção da globalização, vai propiciar o humor da ocasião: se a proposta é risível em teoria, imagine na prática.

Enfim, poderá ser o fórum dos desaforos.

(Publicado originalmente no jornal Extra Classe, mar/08)

É tanta sacanagem que fazem com o Brasil

que o país saiu do berço esplêndido e

agora está numa cama redonda de motel.

Os ingênuos acham que

de trégua em trégua a paz avança.

Eu acho que de trégua em trégua

é a guerra que não cessa.

Como sempre, os opostos se atraem.

Já os semelhantes se detonam, cada vez mais.

 

Poeminha da época

A cada fim de ano

bom ano a gente almeja

Mas já em janeiro

o novo ano nos alveja.

 

Pouco a pouco, o linguajar empobrece.

E faz tempo que o silêncio perdeu a eloquência.

Argumento é a mímica do pensamento.

Dedo em riste é a mímica da falta de argumento.

As pessoas dão graças a Deus quando escapam

de acidentes, desastres, tragédias coletivas.

Se Ele tem algo a ver com quem sobrevive,

não teria também a ver com as vítimas?

Autor

Fraga

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