– Meus turistas, minhas turistas, este farol é novo, não tem cem anos. Era de querosene, agora é luz elétrica, tem aparelho lenticular francês. Antes dele tinha outro aqui, que sumiu. Queimava espermacete, combustível de baleia… Peraí, vou contar. O antigo farol foi comprado por dois americanos ricos. Eles tinham mania de farol, de homenagear as mulheres. Um farol pra cada uma. Ex-marinheiros, sabe como é, um amor em cada porto. A mania deles começou quando uma amante deixou uma herança pra eles. Resolveram batizar um farol com o nome dela. Procuraram uma ilha com farol e se mudaram pro meio do oceano. E assim foi. Onde tinha farol eles davam um jeito de comprar e desmanchavam e construíam de novo, a ilha virou um paliteiro, 34 faróis! Aí descobriram o nosso farol aqui, do século XVII. Mas é proibido vender farol no Brasil, é utilidade pública. Não desistiram, não iam voltar sem farol. Logo apareceu um negro que sabia dum farol, duas enseadas depois daquela ponta, ó. No tal lugar, explicaram pra eles que ali era um quilombo. E quando foram ver o farol, eles riram. Não tinha farol. Era só umas pedras empilhadas, onde acendiam fogueiras para alertar os navios negreiros. Sim, os navios negreiros passavam lá por perto. Vinham atulhados de africanos, trazidos à força. Os americanos arregalaram o olho, que nem vocês. Os negros convidaram os americanos pra passar a noite e mostrar um farol que podiam levar. Então, beberam e cantaram com os negros e depois se assustaram com as histórias da escravidão, gente acorrentada, castigada a vida toda. Mais tarde foram até a pilha de pedras, o fogaréu já tava aceso. Aí os marinheiros queriam saber os perigos do mar dali. Nenhum, disseram. Os americanos se espantaram. Quando os negros ficavam sabendo da vinda de um navio negreiro, deixavam a fogueira pronta, enquanto outros negros vinham até o antigo farol, bem aqui. Eles traziam bebida, o faroleiro ficava bêbado e aí apagavam o farol. Era o sinal para acender o outro, lá na ponta. O que acontecia é que aí o alerta por causa dos recifes ficava no lugar errado, onde não tinha recife. E onde tinha recife ficava sem aviso. Aí o navio negreiro se desorientava, desviava de lá e vinha se arrebentar aqui. Assim os africanos eram salvos de virar escravos. Morria bastante gente nos naufrágios, mas muitos escapavam. O quilombo ia buscar de canoa aqueles que não morriam na embarcação afundada. Sim, os americanos também se entristeceram ao ouvir tudo isso. Mas o melhor vem agora, peraí. Os negros perguntaram se os americanos queriam comprar o farol, aquele de verdade. Claro que queriam. Amanhã a gente trata disso, os negros falaram. Aí os americanos foram conquistados por duas negras na última noite no Brasil. Depois da noitada, os americanos tomaram conhecimento do negócio. Eles riram, o plano era bom. E pagaram adiantado, sabe como é. Depois, eles e as negras não resistiram a mais um encontro. À tardinha, os preparativos estavam feitos, e apareceram centenas de negros pra ajudar. Estavam todos animados, parecia uma festa. Ao anoitecer, vieram pra cá pro nosso farol. Embebedaram o faroleiro, subiram a escadinha e começaram a demolir o farol com cuidado, pedra por pedra. A parte da luz foi mais trabalhosa, tinha vários lampiões e janelinhas de vidro. Os gradis foram arrancados sem barulho. As pedras eram jogadas e rolavam pela ribanceira ali, ó. No escuro nem dava pra ver o formigueiro carregando o barco dos americanos. Antes de clarear, o mutirão tinha acabado. No lugar do farol, ficou só um buracão. Os americanos disseram tênquiu e gubai para os negros, os negros agradeceram e falaram saravá. Aí os americanos sumiram na escuridão, foram embora pra sempre. Dizem que o farol brasileiro é o único da ilha que tem dois nomes… Bem, obrigado a todos pela atenção e as gorjetas! Não, não inventei nada, meu senhor. Meu tetratetravô até me deixou esse boné dos americanos, ó!
(Texto originalmente publicado na revista Tempo, out/09)
Diante de certos candidatos que
começam a divulgar suas ideias,
cogito transferir meu título. Pra Marte.

Elimine o bullyng na hora do recreio, e o que sobra?
Um pátio com 20 minutos de ociosidade.
A professora quis impor silêncio na sala de aula,
mas a mensalidade escolar falou mais alto.
D E F I G N I Ç Õ E S
Burrice – Traumatismo craniano pelo lado interno.
GPS – Tecnologia avançada que informa com extrema exatidão onde a pessoa se encontra perdida.
Inseminação artificial – Reprodução humana cujo prazer no processo foi totalmente eliminado.
Pesadelo – Sensação de horror diante de coisas que se vê, que ocorre e perdura enquanto estamos acordados.
Rotina – É uma agenda de uma página só.
Septicemia – Contaminação generalizada de todo um sistema hospitalar.
Etc.
Cedo ou tarde, todo funcionário puxador
de tapete dos colegas acaba promovido.
A capacho da diretoria.
Assédio sexual na empresa é arriscado:
quem dá em cima da funcionária que o diretor
tá comendo é sumariamente demitido.

Já tentei me livrar de várias senhas. Inútil.
Até pra isso exigem uma nova senha.

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