Os cientistas e os economistas mundiais chegaram à mesma conclusão que os camelôs da esquina: o consumo é salvação da paróquia. Daí a quermesse universal em que vivemos. Até aí morreu Neves e se gastou um dinheirão na funerária. A novidade é que agora os cientistas foram mais fundo na caixa preta humana, vulgo cérebro. Voltaram de lá com a certeza ululante: fora das ofertas, promoções e liquidações, não há vida inteligente. Por sua vez, os economistas analisaram o casco do titanic capitalista e aconselharam os timoneiros: abram os cofres governamentais para bancos e empresas flutuarem, baixem os juros pro comércio, ampliem o crédito para que os passageiros se refestelem a bordo. Tudo isso enquanto a Groenlândia degela, os oceanos sobem, as chuvas caem e a defesa civil fica indefesa. Dá o que pensar verificar que, desde os primórdios sociais, lá nos entremeios do crânio – hipocampo, cerebelo, córtex, vulgo massa cinzenta – não existe outra coisa senão extensões dos bolsos e bolsas, plugados diretamente com prateleiras e balcões, conectados instantaneamente a máquinas registradoras. Tudo isso emotivamente dependente de um sistema imbatível – vulgo capitalismo. Quer dizer, além dos instintos predador e competidor, temos algo mais imperativo, o instinto consumidor. É ele que faz o ser humano babar diante de lançamentos, correr sem parar atrás de novidades e jamais se saciar ao acumular. Instinto muito mais feroz que os outros, embora os demais instintos levem a culpa pela ferocidade da sociedade. Enquanto isso, no meio da selvageria, o instinto de sobrevivência que sobreviva por sua conta e risco. Com estas descobertas, ditas científicas, recém comprovadas em meio à crise (vulgo fraudes financeiras), fica a sensação rasteira e vazia: se a natureza da gente é essa mesmo, então não tem jeito. É relaxar e gozar em dez vezes sem entrada. O mundo precisa apenas virar um shopping que atenda a todos. A contradição dessas constatações da ciência, bem como dessas estratégias salvacionistas da ordem global, é que os argumentos são tendenciosos e corruptores. Na verdade, é tudo propaganda do próprio sistema, que seduz pela conformação e faz esquecer que é o humanismo que nos define e separa dos outros animais, que apenas se abastecem a cada vez. O resultado é a vulgaridade mercantilista que se assiste, desde a banquinha do camelô da esquina à butique luxuosa. Pois o veredito parece definitivo: sem consumo exagerado a vida não é mais possível. Que dirá espírito natalino sem cartão de crédito. |
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Como dizia o iconoclasta para o parceiro de vandalismo durante uma madrugada numa igrejinha barroca: Como dizia o bobo da corte puxando o saco do príncipe herdeiro à beira do leito de morte do rei: Como dizia no talk-show a garota curvilínea, que posara nua para mais uma revista masculina: Como dizia o bombeiro ao repórter depois de apagado o incêndio num aviário capira: Como dizia um feitor para outro, irritadiço com o desenrolar dos serviços no palácio romano: Como dizia o médico confirmando diagnósticos para cliente hipocondríaco que aniversariava: Como dizia a podóloga que além de bem-sucedida na profissão também agradava como cantora noturna: Como dizia a mariposa invejosa a outros insetos, ao observar a crisálida se aprontando para borboletear: Etc. |
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