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Ornitografia

Nem só de pássaros vivem os observadores: há gente que prefere observar palavras. Nem filólogos nem lingüistas, são ornitógrafos. Eles não lêem – perco

Nem só de pássaros vivem os observadores: há gente que prefere observar palavras. Nem filólogos nem lingüistas, são ornitógrafos.

Eles não lêem – percorrem páginas e páginas alheios a tramas, informação, cultura. São atraídos pela aparência dos termos, como a seqüência das letras, a conformação tipográfica, a sonoridade. Mas ao contrário da ornitologia, nada de classificações, análises. Preferem a plasticidade ao sentido. Vêem homofonias e homografias como penugens e trinados.

Nesse hobby vocabular, pincenês e monóculos já foram essenciais, hoje não saem a pesquisar sem lupa no bolso. Para eles, bibliotecas equivalem à mata atlântica, sebos são como capões, enquanto livrarias padronizadas se assemelham a hortos florestais. Nesses locais, uma estante parece bosque, um alfarrábio vira um jacarandá, com bandos fugidios a saltar de obra em obra.

Seja aonde for, nada de leitura à primeira vista; é preciso espreitar por entre o contexto textual. De repente, sem pios nem ruflar de plumas, espécimes com uma mesma cauda se sobressaem. Turíbulo, tubérculo, patíbulo, cubículo, tabernáculo, prostíbulo. Envergaduras garbosas que poucos notam.

Na alvura impressa, flanam distantes, por diferentes trechos dos volumes, como garças na neblina ou cisnes em lagos de leite. É sempre assim, vigília constante. Dispersas por superfícies a esmo, há que se concentrar nas serifas, no silencioso bater de sílabas, na quietude do pouso na celulose. Vôos aleatórios que não têm nada a ver com o rumo da escrita. É assim que rimas em formação casual cruzam a retina: parafernália, califórnia, polifonia, dúzias delas. Debandaram de algum tomo parnasiano.

De boa saúde, observadores vão a consultórios para folhear revistas antigas, embora só encontrem publicações gastas. Nos ônibus, miram de soslaio o jornal do passageiro ao lado. Ou adentram um bric-a-brac como quem não quer nada, e não querem mesmo. No umbral da penumbra, vislumbram aves polissilábicas a dormitar numa perna só: quinquilharias, badulaques, geringonças, traquitanas, cacarecos. O entulho de outrora valeu o dia.

Até em pronto-socorro infantil esvoaçam, vindas de um ninho de pálidas folhas de prontuário: machucadura, picadura, torcedura, queimadura, esfoladura. Num átimo, vão embora, levadas por atadura.

Em seu lazer, os ornitógrafos têm um orgulho: não espiam palavras cruzadas. Seria como apreciar passarinhos engaiolados. Um desprazer.

Quem disse que a indigência mental

não produz nada?

Taí o Big Brother Brasil, na 10ª edição. Pessoas que assistem qualquer porcaria

a qualquer hora em qualquer canal –

a isso chamam de audiência qualificada.

Destino, dizem, cada um tem o seu.

Mas aí ocorre um terremoto e

junta 45 mil destinos num só. Por mais distantes que sejam as tragédias,

de um efeito ninguém escapa:

do sensacionalismo escabroso da mídia.

O clima está desse jeito

porque até os meteorologistas

andam intempestivos.

Férias: período em que a família

troca as desavenças familiares na cidade

pelas desavenças na praia.

 

Autor

Fraga

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