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Página virada

Um mundo em que não faltam romeus e julietas de todos os tipos, um par tipográfico é até previsível. Uma historinha que qualquer menestrel …

Um mundo em que não faltam romeus e julietas de todos os tipos, um par tipográfico é até previsível. Uma historinha que qualquer menestrel pouco inspirado tira de letra, até eu.

Ele era um garrancho, ela era caligráfica; ela, caixa-alta, esguia em seu corpo 18; ele caixa-baixa, volumoso como todo bold. O que um veria no outro?

Ela não era o seu tipo, e suas famílias eram muito diferentes. Ele vivia enrabichado em garatujas que logo se entregavam a ele, em muros rabiscados e até paredes de banheiros. Um conquistador vulgar, que prometia filigranas a todas as letras que caíam na sua lábia. Por assédio às funcionárias, perdera o emprego na Academia de Letras.

Ela estava compromissada com uma Letra Capital, tipo graúdo, ótima posição no mercado. Afinal, ela era uma bela Letra de Câmbio, descendia de uma Letra do Tesouro bem aplicada. Ele, apesar de um traço ascendente, não passava de uma letra hipotecária. Se fosse um homem, teria um bigodinho fininho.

Se esbarraram numa pilha de papéis, tarde da noite, serão de um contador. Por entre algumas folhas, ele a viu, sobressaindo em meio ao palavreado técnico. O que fazia uma letra esbelta como aquela, num lugar inexpressivo como aquele? Foi isso que ele perguntou, foi isso que ela nem se deu ao trabalho de responder. Imagina, logo ela, acostumada a altas cotações dos admiradores. Se fosse uma mulher, jamais teria um sinal acima do lábio.

Assim próximos, na promiscuidade forçada da papelada, de repente o conquistador barato se apaixonou por aquela letra firulada, inatingível. Um golpe que abalou suas hastes, e tudo que ele pôde fazer, fez errado: foi sincero. Um texto tímido, sem volúpia. Desinteressada, a poucos parágrafos dele, ela flertava com uma letra inicial, de design contemporâneo.

Ele ardeu em ciúmes. Ainda sonhava com um encontro consonantal, os corpos entrelaçados num monograma de travesseiro. Mas ela frequentara as colunas financeiras, enquanto ele mal passara das letras primárias. A frustração incendiou iletrado, enquanto a serifada só tinha ouvidos para o sotaque itálico ali perto.

A tragédia se insinuava. Ele estava a ponto de empastelar aquela letra quando várias letras de forma perceberam e o afastaram dali. Foi para um boteco e na mesma noite virou uma letra garrafal.

Procurou-a em vão em balanços, de onde era expulso. Uma letra ensombreada, vazada. Se foi sem mesmo uma frase lapidar.

Ela? Ficou milionária, rodando sua Bolsinha de Valores.

(Publicado originalmente no jornal Extra Classe, dez/09)

As pesquisas apontam que a maioria do povo

brasileiro acredita em Deus. Pode ser.

Mas duvido que seja um sentimento recíproco.

Padres

 

Tem emissora de rádio tão ruim que,

para não ouvi-la no elevador,

as pessoas preferem subir as escadas.

Das questões nunca questionadas:

por que chamam de “horário nobre”

se TV não tem nobreza nenhuma?

 

Digerindo

Eu sou do tempo em que bipolar era a terra,

não os terráqueos.

Autor

Fraga

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