E agora, mais um plebiscito em horário nobre. Parodiando Cazuza: esse já vem malhado antes de votar. Você decide. Pois esse Congresso, que năo congraça nada consagrado pelo consenso do bom senso, empurra com a barriga todas as questơes nacionais relevantes. Um Congresso com argumentos de grosso calibre e lobbies certeiros. Que nos impơe a discussăo sumária da comercializaçăo de armas em vez de propor demorada reflexăo sobre a fabricaçăo. Daí o equilíbrio que mais assusta: aquele entre a falta de vigor das instituiçơes brasileiras e a fraqueza do Estado. A insegurança geral deixou de ser uma prova da falência administrativa para virar uma bandeira inquestionável, hasteada pela truculência. Num país, como diz o Millôr, em que as Forças Armadas já estăo utilizando armas de uso exclusivo dos traficantes, năo há como localizar com precisăo os furos deste referendo. Nada de mais embaixo, ou mais em cima; as perfuraçơes, como os interesses, văo de alto a baixo. Armar-se, individual ou coletivamente, é uma prerrogativa com trajetória única: matar ou morrer. A diferença estará, apenas, na quantidade de cadáveres. Coveiros irăo fazer a sua opçăo no plebiscito baseados na mais dolorida perspectiva: o volume de trabalho que os espera. Me defino como pacifista. Um cara armado apenas das palavras. Com elas muito me defendo, seguido contra-ataco, raramente ataco. Fora desse arsenal inútil contra a beligerância física, sempre fui e serei sempre um desarmado. De intençơes, de atos e de objetos, e assim morrerei – tomara que năo vítima da ideologia que me entranha. Sou apenas sereno diante do Inevitável no inevitável dia de amanhă. Sim, também carrego medos. Alguns perturbadores, no peito; outros, insignificantes, no bolso. Porém, o medo que mais me atropela é o que tomou conta dessa maravilhosa terra: o medo social. É mais como um desatino populacional, ameaçadora desorientaçăo que amedronta por falta de um mínimo de certezas. Em matéria de pavores, o maior é năo se saber pra onde se vai. Mas, năo custa lembrar, nenhuma arma pode ser uma bússola. Este ano, neste outubro, este paradoxo eletivo: seremos obrigados No dia 23, mais que um dever, você tem um direito de escolha. Siga, por exemplo, o raciocínio do amigo Celso Schröder: teremos que decidir se somos um país de pessoas que abdicam do princípio de assassinar alguém, ou se assumimos o papel de eunucos que adoram afagar signos de virilidade prontos a disparar, como dizia o velho Freud. Diante dessa urna imbecilizada pela simplificaçăo, tenho só uma alternativa nesse país sem alternativas: só posso escolher votar a favor. Entre morrer e matar – como assume a minha amiga Olga Pacheco e tantos outros sensatos dispersos – escolho morrer. Năo é uma convicçăo burra nem passiva, como poderăo concluir os discordantes, que sempre interpretam os pacíficos depressa demais. É crença prática e objetiva: se me armo, só aumento os perigos do meu próprio destino e ainda pioro a margem de risco do destino dos outros. Armamento mata, desarmamento năo. |
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| É Primavera e eu nem notei. Esse perfume na brisa é sem par: Esse clima da Natureza é fantástico: Esse verde das ruas é encantador: Esse sol que vem cedinho nos iluminar: Essa estaçăo é toda feita de paz: É. É Primavera e eu năo notei. (Publicado originalmente há mais de 20 anos. |
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