Como eu ia dizendo em outubro de 2012, quando eu mesmo me interrompi: peraí, Fraga, melhor irromper outra hora, quem sabe em agosto de 2013. Puizé. Agora, ao romper numa aurora sem aura nem auréola tô eu aqui tentando chegar a novos áureos tempos. Que é como chamam as temporadas vistas pelos retrovisores nas têmporas. De tanto avistar só temporais, acabei por contemporizar comigo mesmo, já que com o Brasil não dá. Com certos contemporâneos não se consegue nem consertar um país. Não com esse prazo das promissórias nacionais. Aqui tudo vence demasiado rápido: as promessas, as premissas, as coisas promissoras. Vejam a validade da nossa época: mais dia, menos dia nossa era já era. Ou hera. Numa semana são manifestações avulsas; na outra, é a convulsão. Num mês a inflação dá as caras, num outro até a Caras dá deflação. E a ameaça da estagnação? Só não ocorre porque mal ou bem as estalagmites e as estalactites crescem umas na direção das outras. Vê só: embora produza tantas travas e traves no padrão Fifa, o Brasil não destrava nem diminui os entraves. Nosso país não decola porque nem ampliação de aeroporto o governo descola! Tudo isso exige megaesperança diária, em meio a megasenas que não saem, megastores minúsculas, megafones megalomaníacos, megalópoles a galope. No tropel das tropas se viu: não foi o gigante que acordou – foram os escândalos gigantescos que nos tiraram o sono. Afinal, sempre se soube que de esplêndido o berço só tinha o adjetivo. Por isso as erupções vieram pra ficar, apesar dos interruptores. Tai, gostei da redescoberta do Brasil. Daí esta nova coluna. Ininterrupta.
Bugigangas
Clandestina, a maconha é uma droga
que cria hábito no usuário. Legalizada, aí o hábito
será exclusivo do governo.
Se ir para a rua conquistasse direitos,
há muito os sem-teto já teriam teto.
Enquanto o Estado espia, o cidadão expia.
O declínio do poder aquisitivo é
mais visível na nota de R$100,00:
daqui a pouco ela terá só valor estimativo.
A insatisfação no país com os governantes só não
é maior porque a estatura do brasileiro é mediana.
As pessoas mais razoáveis são aquelas que
não se importam em ter ou não razão.
ALÉM DE DECIDIR O PÚBLICO DO GRENAL,
A BRIGADA MILITAR VAI ESCALAR OS TIMES
E DEFINIR OS EMPATES NO PLACAR.
Contradições existem em qualquer lugar.
As redes sociais estão cheias de anti-sociais.
Aquele que nunca protestou por melhorias no curso
de geologia que atire a primeira pedra.
Sê como o vândalo,
que deixa fedendo o machado que o serve.
Para apreciar, pedem moderação.
Para o desapreço não precisa moderar.
Quase todo mundo detesta a segunda-feira.
Os empregados, por ter de voltar ao trabalho.
Os desempregados, por não poder voltar.
SE O PAPA NÃO PODE JULGAR OS GAYS, PODIA AO MENOS JULGAR O FELICIANO.
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A saúde pública está assim desacreditada porque os médicos do SUS só consultam com médicos particulares. A saúde pública está assim desacreditada porque os médicos do SUS só consultam com médicos particulares.
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| VOCÊS VÃO VER: O MAIOR DE TODOS OS INVESTIMENTOS PARA A COPA 2014 SERÁ NO OTIMISMO.
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Luis Fernando Humoríssimo.
Uma homenagem por cima dos panos.
Ele graceja em papeis, elas tracejam em tecidos.
O negócio dele é gozar o país ponto por ponto.
O ofício delas é ter prazer com o pesponto.
Qualquer que seja o assunto, ele manda ver nas entrelinhas.
Não importa o tema, elas mandam e desmandam nas linhas.
Ele aplica graça e ironia aos contextos.
Elas põem aplicações em contexturas.
Ele pinta e borda com tiras e cartuns.
Elas bordam e pintam com fios e fiapos.
A concisão dele elimina rebotalhos,
a precisão delas aproveita retalhos.
Ele é capaz de alfinetadas admiráveis,
elas são admiradas pelas agulhadas.
No traço ou no texto, ele se vale de farpas.
Na trama ou na textura, elas valorizam felpas.
Por costume, ele não abusa da fala.
No urdume, elas usam a cala.
À mesa, ele se entrega a caldos e caldas.
Após a tosa, elas se empregam na carda.
Ele não resiste a um filé, elas adoram filó.
O petit-pois agrada ele, o poá atrai elas.
Ele aprecia peito, coxa e sobrecoxa.
Elas se encantam com pied de poule.
Ele só quer saber do cozer; elas, do coser.
Ele não sai da frente das telas e da telona,
Elas não largam as entretelas e a lona.
Renda pra ele são os direitos autorais,
renda pra elas são recursos artesanais.
Ele casou com a Lúcia.
Elas têm caso com a pelúcia.
Enfim, ele e elas tinham que acabar entrelaçados.
Ele: Luis Fernando Verissimo Elas: Ana Perrone / Bárbara Benz / Carmen Netto / Celina Cabrales / Christy Schimitt / Cris Berger / Deijanira Eli Carneiro de Almeida / Dinorá Bohrer Silva / Francisca Dallabona / Helena Alapont Abreu / Lenir Romero Fagundes / Lia Achutti / Mara Doratiotto / Maria Luiza Pizzato / Marília Diefenthaeler Herter / Marília Lindemann / Rachel Tamar Gurski / Sara Netto / Vera Aparecida Becker / Vera Regina Baldasso.
(Apresentação da exposição, que é uma releitura têxtil sobre a obra do cronista mais querido do Brasil. Promoção Centro Cultural CEEE Erico Veríssimo. Iniciativa Maria Rita Caminhos Culturais. Visitação até 4/9, terça a sexta das 10 às 19h, sábados das 11 às 18h. Endereço Rua dos Andradas, 1223)

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