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Rir, o melhor do gene

(Prefácio para a antologia de humor Edição de Risco) Foi uma longa pesquisa. Algo entre as décadas recentes e os últimos cinco mil anos. …

(Prefácio para a antologia de humor Edição de Risco)

Foi uma longa pesquisa. Algo entre as décadas recentes e os últimos cinco mil anos. Este relatório, válido enquanto outro relatório não vem, sintetiza o que é possível saber da espécie gauchus desenhisticus. Hein? Híbrido é você, leitor, que curte todas as formas de humor.

Os traços do humor gaúcho – isso que muitas vezes nem traços de humor contém – já (re)descobertos em outras eras, podem, agora, ser reavaliados em mais uma etapa de um levantamento gradual do que seria a graça dos pampas. Genoma esse que se examina risivelmente, pois a espécie analisada tem um traço genético incomum: desenha para ser acreditada que existe. Sua sigla, nem biológica é: quer dizer, simplesmente, Desenhistas Naturalmente Associados.

Esta amostra em suas mãos é a mais atualizada e abrangente já feita para um futuro e completo mapeamento do DNA do gênero. Desta vez, em abordagem inédita, o estudo se deteve nas quatro principais subespécies do animal que desenha, encontrável em todo o Rio Grande do Sul.

Para fins de determinação das características, os 32 espécimes selecionados cederam, voluntariamente, rico material genético – charges, cartuns, quadrinhos, ilustrações. Por análise, se chegou a surpreendentes conclusões: admiráveis umas, risíveis outras, interessantes todas. Calma. A introdução científica é curta, logo em seguida você vai se divertir com o bicho desenhador. Quem sabe até o adota como de estimação.

A fauna desenhista gaúcha apresenta exemplares que, de tão talentosos na sua expressão, podem pertencer a mais de uma das classes em que se expõem. Pela plumagem ou pelagem que exibem, assim se destacam: chargistas, que ao desenhar opinam sobre fatos reais; cartunistas, que desenham idéias atemporais, compreensíveis em qualquer lugar ou época; quadrinistas, que desenham histórias seqüenciais, desde tiras até gibis inteiros; e ilustradores, que desenham imagens para acompanhar textos.

Como se pode aferir na amostra, os machos preponderam. Não há, contudo, preponderância de machismo. Aliás, desenhistas de humor e adjacências são animais bem estranhos: seus ascendentes pouco têm a ver com as artes gráficas. Talvez seu tronco ancestral tenha começado com primitivos rabiscadores, os que usavam paredes rupestres. Só mudou o suporte. Enfim, seres produzidos pelos acasos da evolução, em saltos genéticos. Quando um desses bichos tem um filhote de igual natureza, há regozijo no bando.

Quanto à reprodução (gráfica, bem entendido), essa ocorre quando conseguem superar as deficiências do habitat natural – um mercado que valorize talentos. Em tais condições, põem ovos em ninhos precários, feitos de favor editorial, sem vínculo empregatício, sob aviltamento salarial, mau tempo nas redações, entre outros desfavoráveis ambientes. Pacientemente, por meses a fio, podem chocar idéias, que acabam mesmo chocas. Podem parir embriões criativos em espaços adversos, que sucumbem na pré-gestação, sem poder sobreviver aos riscos, sem trocadilhos. Muito comum o aborto de projetos.

Para ganhar forças, tentam formar grupos, amadores ou profissionais, que se mantêm esparsos, aos uivos e pios aqui, urros e trinados ali. Com linguagens tão variadas, nem sempre as manifestações são continuas e duradouras. Este catálogo da espécie, tão distante dos anteriores, comprova.

Solitários ou em bando, os desenhistas passam suas vidas a espreitar a vida. Vivem caçando idéias, e se alimentam mais de promessas editoriais que de espaços reais a preencher. Dotados de esperançosas asas, sobrevoam sem cessar todas as áreas da mídia. Visão aguçada, percepção altamente desenvolvida, desde o alto farejam oportunidades para pousar e nidificar. Jornais, revistas, livros, publicações, cartazes, panfletos, internet, tudo os atrai. Vôos em vão.

Mas, quando o mercado menos espera, nhac! Cercam e atacam a realidade. Nas ocasiões propícias, se atiram e abocanham tudo ao alcance. Sozinho ou em grupo, o desenhista faminto devora prazos, cumpre tarefas, estraçalha  oportunidades. E de acordo com a situação na jângal, utiliza instinto feroz em charges incisivas, joga graça em divertidos cartuns, coloca fabulosa imaginação em HQ e aplica inspiradas sacadas nas ilustrações.

Desse festim, diabólico às vezes, irônico outras, resulta o equilíbrio do ecossistema: ora essas feras têm suculentas páginas à disposição, ora ruminam glórias do passado, ora catam sobras do mercado. E assim vão vivendo de humor, ou coisa parecida.

Unidos pela ideologia e mesmo afastados pela geografia, os desenhistas não desistem de mostrar os traços da fúria criadora – não aceitam passivamente a extinção da espécie. Demarcam território sem recorrer a secreções renais  (esguicham nanquim, guache e aquarela) e nas superfícies de celulose e em telas de computador deixam rastros de grafite, esferográficas, giz de cera, lápis de cor e pantones.

Em paredes expositivas ou ao ar livre, liberam a ferocidade que os identifica exemplarmente: com garras Gillot treinadas pela sobrevivência artística, abatem falsas aparências e derrubam conceitos. A maioria morde a realidade, alguns apenas a arranham ou a lambem; outros rasgam nacos da atualidade e mastigam notícias sem se importar com o gosto ruim; muitos engolem fatos inteiros, dilaceram o pessimismo; e, ao final do repasto – indigesto ou não – todos regurgitam planos.

Assim é, observado através dos seus brilhantes porém nem sempre evidentes vestígios nos pampas, o nosso animal que desenha. Neste zôo em que vivemos chamado Brasil, é bom prevenir: não se metam com o insaciável apetite dos desenhistas. Pois uma coisa é, mais que certa, certeira: o que vier eles traçam.

(Edição cooperativada dos autores, lançada em
2006 pela Grafar – Grafistas Associados do RS)

Autor

Fraga

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